Diário de bordo de 8 de Fevereiro de 2012

Numa palestra para estudantes, o primeiro-ministro apelou à transformação de velhas estruturas e velhos comportamentos, acusando os portugueses de ser preguiçosos. Pediu-lhes para serem “mais exigentes”, “menos complacentes” e “menos piegas”, para que Portugal consiga superar a actual crise económica. E confessou-se embaraçado por, nós que devemos dinheiro aos alemães, fazermos feriados em dias que para os credores são laborais.

 

De facto, Passos Coelho tem razão – somos complacentes e piegas. Um exemplo – após o 25 de Abril, os agentes da polícia política, os torcionários, tiveram prisões simbólicas, e alguns foram mesmo condecorados por “serviços prestados”. Durante a “transição para o estado democrático”, 2755 pessoas foram a julgamento, com penas entre a suspensão de direitos políticos e penas de prisão, que variavam entre um mês e mais de dois anos. Segundo a professora Irene Pimentel “houve instruções de processos e prisões”. Porém a historiadora admitiu que a maioria dos visados saiu em liberdade condicional e não voltou porque os seis meses de prisão preventiva cobriam o tempo determinado pela sentença. Menos de três mil pessoas e, penas pesadas como as que os tribunais plenários aplicavam aos antifascistas, ninguém teve. Para não falar das condições prisionais que uns sofreram e outros não. Na “transição para o estado democrático”, antes de estarmos verdadeiramente em democracia – podíamos ter criado leis de excepção. Para alguns torcionários, a pena capital seria uma pena leve. Mas, o que querem? Somos complacentes e piegas.

 

Outro exemplo foi a constituição do PPD a partir de gente vinda da União Nacional – sim, todos sabemos, era a “ala liberal”, eram os políticos que compreendiam que era preciso mudar para continuar. Acabar com o fascismo e dar lugar a uma democracia (que aos poucos se tem vindo a aproximar da «democracia orgânica» de Salazar). Eram, no covil de São Bento, os parlamentares “bons” que justificavam a existência dos “maus”. Na PIDE era a mesma coisa – em cada quatro torcionários dos que vigiavam um preso durante a tortura do sono, havia um “pide bom”. Tão criminoso como os outros. Teria sido fácil criar instrumentos jurídicos que barrasse a tais indivíduos a possibilidade de criarem um partido. A palavra “democrata” na sigla não devia ser suficiente para branquear passados obscuros ao serviço da ditadura. Fomos , mais uma vez, complacentes e piegas.

 

E agora também somos preguiçosos – coitados dos alemães e dos franceses a emprestarem-nos dinheiro e nós em vez de trabalharmos mais (ou morrermos, para diminuir o desemprego e a pressão demográfica), gozamos feriados – o senhor primeiro-ministro fica envergonhado perante a senhora dona Angela e o senhor Nicolau. Até parecemos os gregos! O senhor Obama tinha dito que os Estados Unidos não são a Grécia nem Portugal. O senhor Coelho diz que Portugal não é a Grécia…

 

Bem, tudo isto de que falámos – pieguice, complacência para com torcionários e fascistas conservadores ou liberais, faz parte do «jogo democrático». Nós não sabíamos que a democracia era um jogo. Mas o que será a democracia?

 

Se calhar é melhor perguntarmos aos gregos.

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