A última vaga que nos abalou (quem navega, deve usar imagens marítimas) foram as observações de Angela Merkel sobre a má aplicação dos fundos europeus na Madeira. Há que ver que este caso tem de ser abordado de duas maneiras.
A primeira é que a senhora chanceler saiu-se com esta, porque Portugal é um alvo fácil, e a Madeira é notoriamente um caso excessivo. Portugal é um alvo fácil, por duas razões. A primeira é o estilo de Passos Coelho y sus muchachos. Com um ar muito sério, andam a querer convencer toda a gente que encontraram o país num caos (o que até é verdade, mas eles estão a pô-lo ainda pior, e a tornar a vida dos portugueses, que já era má, num autêntico inferno), e que estão diligentemente a endireitá-lo. Lá fora fingem que acreditam, e assim conseguiram sem esforço meter cá a troika, para nos pôr a pagar os juros que nos quiserem impor e a orientar a nossa economia no sentido que mais convém à UE, portanto à alta finança, ainda mais do que anteriormente. A segunda razão é que toda a opinião pública, nacional e internacional, tem andado a ser preparada desde há já algum tempo para o cenário de, a seguir à sessão de castigo à Grécia, vem Portugal. Na realidade as juras de Passos Coelho que isto aqui é diferente da Hélade não interessam lá fora para nada. Só ele é que não sabe.
De qualquer modo nada disto justifica a tirada da chefe teutónica. Se tivéssemos cá chefes realmente competentes, que não andassem entretidos a chamar piegas aos portugueses e a dizer outros disparates, a pisar os funcionários públicos e a liquidar a melhor parte dos serviços, mandavam-lhe os submarinos de volta. É verdade que o Sócrates pagou-os à cabeça, que ele também respeitava muito os alemães e os outros manda-chuva. A senhora preferiu atacar os portuguesitos, que os gregos estão muito assanhados, e os italianos e os espanhóis, embora também tenham muitos problemas, têm mais peso. E chefes menos cordatos, para não dizer submissos.
A outra maneira de abordar a questão é reconhecer que o que ela disse é verdade. Na Madeira despendeu-se muito mal o dinheiro. De um modo excessivo. E também aqui há várias questões. A primeira é que nada garante que o dinheiro passe a ser bem gasto. Mesmo nada. E a seguir, há pior. Na Madeira, tal como no resto do país, os sacrifícios vão recair sobre quem tem menos recursos, e não sobre quem realmente manda na economia, e que levou o país a este estado. A situação de crise, é conhecido, deve-se sobretudo à concentração de riqueza, que abriu caminho à especulação financeira. Os grandes detentores do dinheiro preferem jogar na bolsa ou fazer investimento financeiros, que esperam que lhes dê mais lucro (por vezes enganam-se) com menos trabalhos. E os que ainda se mantêm na economia resistem muito a fazer evoluir as suas empresas, as suas estruturas produtivas, de uma forma mais consentânea com as necessidades da sociedadeem geral. Veja-sesó o caso da construção civil.

