Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Nas economias desenvolvidas, um actor está especialmente equipado para enfrentar os mercados financeiros e as suas estimativas: os bancos centrais. É suposto que estes intervenham para ajudar as instituições que, embora solventes, se encontrem em situação de dificuldade por causa das falhas do mercado. É esta a prática que se chama de “credor em última instância”. Esta doutrina reconhece aos bancos centrais, nos momentos de crise, um poder de avaliação autónoma. Enquanto o mercado considera esta ou aquela instituição financeira insolvente e se recusa a conceder-lhes crédito, o Banco Central apoia-as exactamente em nome de uma avaliação de sentido contrário.
Hoje, encontra-se esta mesma situação em muitos países na zona euro. A grande maioria dos analistas considera que a taxa de juro exigida para a dívida de um país como a Itália, por exemplo, entre outros, reflecte uma profunda incompreensão da situação neste país. O aumento das suas taxas de juro seria mais o efeito de um medo generalizado do que o resultado de uma análise racional. Nestas condições, o Banco Central Europeu (BCE) tem o dever de intervir. Se isto não é feito, devemos então temer que, confrontado com taxas excessivas, este país tenha realmente que entrar em situação de incumprimento. Que ironia!
Na base desta análise, é pedido com muita insistência ao BCE que compre dívida pública a fim de fazer descer as taxas de juros. Recusar-se a intervir, como o exige a Alemanha, faz correr grandes perigos ao euro porque, caso contrário, estas taxas altas têm como consequência imediata submeter as nossas políticas macroeconómicas aos erros de avaliação dos mercados financeiros, nomeadamente, à sua propensão para o contágio irracional.
Seria necessário temer que uma difusão das políticas de austeridade conduza a uma repetição das condições que a Europa sofreu na década de 1930: políticas deflacionistas que desestabilizam em profundidade as sociedades europeias sem gerar crescimento. Como é que, nestas circunstâncias, se pode compreender a posição da Alemanha, que recusa com a máxima força esta política de intervenção?
Para justificar a sua recusa, a Alemanha argumenta que a monetarização da dívida pública faria correr um risco de inflação perigo para o euro. Este argumento não é sério. Não estamos de forma alguma na véspera de uma hiperinflação. Como o exprime muito bem o economista Willem Buiter: “uma pessoa pode-se afogar na água, mas isso não é razão para recusar um copo de água quando se está cheio de sede. “.
Um outro argumento justifica o recurso aos mercados pelo facto de que só estes teriam o poder de obrigar os países deficitários em dificuldades a adaptarem-se. Mesmo se a prova não está feita, este argumento reflecte a verdade da situação, que é de natureza política e social: a desconfiança de uns relativamente aos outros, sem árbitro reconhecido. A independência da moeda relativamente aos governos não tem outras origens: a ausência de uma soberania europeia. Mas pode existir uma verdadeira moeda sem que haja soberania? Esta é a questão da crise.
André Orléan, um dos economistas aterrados, publicado no Le Monde.
