(Continuação)
O cerco ia-se apertando, no entanto. O “Infante de Sagres” aportou a Leixões com reforços. Em Valbom, tropas governamentais tinham atravessado o rio e dirigiam-se a marcha forçada para o centro do Porto. Os combates tornavam-se, de hora para hora, mais renhidos. Violentos tiroteios ouviam-se perto da Batalha, no Bonfim, em Santo André (Poveiros), Padrão, Campo de 24 de Agosto, Rua do Duque de Loulé, Fontainhas, S. Lázaro…
No dia 4 de Fevereiro, e nos dias imediatos, juntaram-se aos revoltosos do Porto forças vindas de Penafiel, Póvoa do Varzim, Famalicão, Guimarães, Valença, Vila Real, Régua e Lamego. De Amarante chegou mais artilharia, a qual foi posicionada perto de Monte Pedral. A artilharia da Figueira da Foz foi detida na Pampilhosa quando se dirigia para o Porto. Começaram a chegar notícias de adesão de diversas unidades: Viana do Castelo, Figueira da Foz e Faro, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António. No entanto, a notícia mais esperada, a da adesão da guarnição de Lisboa não chegava e esses levantamentos locais foram jugulados rapidamente.
Às quatro da tarde do dia 5 houve intenso fogo de artilharia nas duas margens do Douro, um combate que causou baixas nos dois lados. Nessa manhã falhara uma tentativa de os combates pararem, com o comandante Jaime de morais e o major Severino a deslocar-se ao posto de comando governamental, instalado num edifício da Avenida das Devezas, em Gaia. O ministro foi inflexível: ou a rendição ou o bombardeamento e a destruição das posições rebeldes. De Lisboa chegou a notícia da adesão de algumas unidades. Travavam-se duelos de artilharia na capital. No Porto, a esperança renasceu.

Parlamentários dos revoltosos, o comandante Jaime Morais e o major Severino, vendados, a caminho do quartel-general do Ministro da Guerra, tenente-coronel Passos e Sousa, instalado num prédio da Avenida das Devezas, em Gaia.
Como já disse, as operações de cerco aos revoltosos eram dirigidas pessoalmente por Passos e Sousa, ministro da Guerra e pelo coronel João Carlos Craveiro Lopes, pai do futuro presidente da República. Um dispositivo que ia, a cada hora que passava, sendo reforçado pelo afluxo de tropas, transformou o centro da cidade ocupado pelas tropas rebeldes numa zona onde nada podia entrar ou sair. Com as atenções focadas em Lisboa, onde o movimento parecia finalmente arrancar, os revoltosos resistiram durante os dias 5, 6 e 7 de Fevereiro à crescente agressividade das ofensivas lealistas, mas à medida que as horas passavam e as munições se iam esgotando, ia aumentando o número dos que entendiam que a rendição era inevitável
Preocupado com o que estava a acontecer, Raul Proença regressou a Lisboa na noite de 6 de Fevereiro para pedir auxílio e para tentar activar a já desencadeada revolta na capital. Pôde verificar que apenas tinha havido movimentações de trabalhadores greves e agitação, movimentos de solidariedade com os democratas portuenses. A tropa continuava nos quartéis. Em Lisboa a agitação alimentava-se com a solidariedade para com as vítimas de uma tragédia, verdadeira, mas pintada com cores catastrofistas. No Porto, a resistência ia buscar forças à ilusão de que em Lisboa a revolta ia de vento em popa e que a ajuda chegaria. Segundo parece, os resultados da viagem de Raul Proença foram nulos. Sem as adesões e os apoios esperados, os revoltosos do Porto começavam a enfrentar sérias dificuldades. Pôs-se a hipótese de assaltar à baioneta o dispositivo de artilharia da Serra do Pilar, mas um tal assalto às baterias leais ao governo seria um sacrifício heróico, mas inútil, de muitas vidas. Ao cabo de cinco dias intermináveis de luta cada vez mais acesa, na zona ocupada pelos revoltosos, os militares haviam-se já apercebido de que não existia qualquer hipótese de êxito. Segundo Sarmento Pimentel, o número dos sitiantes era sete vezes superior ao dos sitiados. Na tarde do dia 7, no quartel-general dos revoltosos, instalado no Teatro de S. João, foram dispensados os civis que voluntariamente ali prestavam serviço. O ambiente era de pesado desânimo. À meia-noite, foi pedido ao major Alves Viana, da GNR, que fizesse chegar ao Regimento de Artilharia 5, em Gaia, onde estava o posto de comando governamental, um documento assinado pelo general Sousa Dias em que era proposta a rendição das forças revoltosas sob algumas condições, tais como a “isenção de responsabilidade aos sargentos, cabos e soldados e toda a responsabilidade aos oficiais”. O quartel-general das forças lealistas respondeu concedendo a isenção de responsabilidades a cabos e soldados, oficiais e sargentos envolvidos seriam punidos. E os civis apanhados de armas na mão seriam imediatamente fuzilados (como, dias depois, viria a acontecer em Lisboa). Pelas 3 horas da manhã do dia 8, Sousa Dias informou que aceitava as condições, ordenando a rendição dos revoltosos. A população saudava entusiasticamente os militares – «Viva o Exército! Viva a República! Vivam os Revoltosos!, gritava-se para os lados do Marquês de Pombal, quando os oficiais passavam de automóvel para as Antas. Iam avisar os camaradas de artilharia da rendição iminente. Diz o capitão Sarmento Pimentel «Correra na cidade a afirmação enganosa da nossa vitória e ouvindo cessar os tiros e grupos de oficiais percorrendo as linhas, mais acreditava a ingenuidade popular na queda do Governo e no triunfo dos republicanos. – Que glória! Que grande glória a destes rapazes vencerem! Dizia comovido um homem com aspecto de empregado de escritório, que passara junto ao nosso carro quando íamos a apear-nos. Santa ilusão a deste povo que depressa acredita no que a justiça e a razão, e a inteligência e a índole democrática lhe mostram por verdade! ». Pelas 8:30 horas, Passos e Sousa entrou triunfalmente na cidade, pela Ponte D. Luís. Estava terminada a revolta. Na tarde desse mesmo dia 8 de Fevereiro, o Ministro Passos e Sousa partiu para Lisboa, cidade onde a rebelião aumentava de intensidade. Nessa manhã, o comandante da Região Militar, Craveiro Lopes, através da telegrafia sem fios, enviou a seguinte mensagem ao presidente da República “Felicito V. Ex.ª e o Governo da Nação. Tropas entraram Praça da Batalha, Porto, às 8 horas e meia, tomando conta da cidade onde a vida vai retomando a sua normalidade”.
