António Sales Paisagem acidental
(Adão Cruz)
Da janela contemplo a voz do vento que despe a árvore da folhagem deixando nus e secos e rugosos os braços roídos pelos anos.
Fugiu a juventude da sombra acolhedora onde o amor vivia plantado na seiva das raízes e a alma repousava no colo a mulher amada.
Agora as horas morrem com as primeiras névoas que anunciam a chegada dos frios da existência e na natureza ouve-se a voz tristíssima da solidão carregada da melancolia de um coro alentejano.
O teu amor vem visitar-me de esperanças despertando histórias que vagueiam pelas veredas do passado e eu fico-me sem gestos nem palavras à espera que aconteças na suavidade baça dos meus anos, nesta fadiga de mistura de cadência dos teus passos com a presença cheirosa do teu corpo e do teu jeito de afagar os meus cabelos com as tuas mãos de renda.
Oferece-me aquele beijo de muitos anos e senta-te ao meu lado a contemplar cada instante que se afasta de nós, enquanto o meu corpo flutua na clepsidra do tempo.


