Dos temas de reflexão enunciados no meu GDH de 30 de Janeiro, selecciono hoje a decepção resultante do discurso do presidente Obama sobre o estado da nação em 24 de Janeiro, quando se referiu ao problema nuclear iraniano.
Conto-me entre os muito milhões de cidadãos desta “aldeia global”, nomeadamente europeus, que rejubilaram com a eleição de Barack Obama em Novembro de 2008. Depois do pesadelo W. Bush e da sua corte neoconservadora, vi em Obama, a ruptura com essa inquietante herança, a esperança num mundo que, apesar de ainda unipolar, pudesse contar com uma potência liderante despida de ambições imperiais impostas unilateralmente e manu militari.
Sobre a sensível matéria das armas nucleares (AN), em que Washington sempre se pautou pela cínica ambiguidade do apartheid nuclear – as nossas AN são boas, as AN dos outros são más –, e quando o tema dominante já era a questão iraniana, Obama proferiu um notável discurso em Praga, em 5 de Abril de 2009, menos de três meses após a sua posse, justificando as expectativas que despertara. Entre outras afirmações muito importantes, afirmou, corajosamente: «(…) como potência nuclear – como a única potência que usou uma arma nuclear – os Estados Unidos têm uma responsabilidade moral de agir (…) os Estados Unidos darão passos concretos em direcção a um mundo sem armas nucleares (…)reforçaremos o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares como base da cooperação. A base da negociação é simples: países com armas nucleares avançarão para o desarmamento, países sem armas nucleares não as adquirirão; e todos os países poderão aceder a energia nuclear pacífica (…)» No Cairo, dois meses depois, reafirmou de forma mais sintética o essencial deste pensamento. Nunca nenhum presidente, nenhum responsável político nos EUA, ousara ir tão longe.
E o que diz o TNP invocado por Obama? O Art II visa a chamada “não-proliferação horizontal”, impedir a emergência de novas potências nucleares (PN). O Art VI visa a “não-proliferação vertical”, obrigar as actuais PN não apenas a cessarem o reforço dos seus arsenais, mas a iniciarem medidas concretas com vista ao desarmamento nuclear geral e completo. Pelo meio, o Art IV reconhece o direito à investigação, produção e utilização da energia nuclear para fins pacíficos. Ou seja, Obama, ao comprometer-se com o TNP, aceitava encarar o problema das AN de forma equilibrada, reconhecendo que só o respeito dos já possuidores pela não-proliferação vertical legitima a imposição da não-proliferação horizontal aos não-possuidores. E vice-versa, só a garantia de que não surjam novos possuidores justifica a exigência aos actuais para que desarmem.
A verdade é que Obama nunca mais abordou o problema nuclear nestes termos. O lobby judaico funcionou. Porque o discurso de Obama pressupunha que a solução para o não provado programa de armamento nuclear iraniano não podia ignorar o mais que provado arsenal nuclear de Israel. Só que nem Israel, nem o ocidente em geral, aceitam, sequer, falar nas AN israelitas. E Obama cedeu.
A decepção do seu discurso perante o Congresso reside, exactamente, aí. Abandonou a perspectiva holística para a solução da proliferação nuclear e rendeu-se à opção parcelar e unilateral, ameaçando que tinha todas as soluções em cima da mesa. Por outras palavras, a guerra preventiva contra o Irão. É o remake do Iraque-2003. Nem mais nem menos do que o que Israel queria ouvir.

