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Os soldados do exército chileno tinham as suas companheiras ou camaradas, que lutavam com eles, heroínas que ninguém se lembra quando se fala da história do Chile. Denominadas as cantineras ou camaradas, por estarem sempre a abastecer de água, vinho e erotismo o seu soldado, companheiro de armas e amante ou namorado. Se é Paula Jaraquemada todos se lembram dela por ser uma Dama de luta; mas, das proletárias, apenas o escritor historiador Jorge Inostroza, se lembra de as mencionar no seu famoso livro Adiós al Séptimo de Linha, em que narra a guerra do Pacífico, uma das duas que envolveu o Chile com o Peru e a Bolívia nos anos 30 e nos 70.
As duas ganhas pelos batalhões chilenos que levavam as suas cantineras com eles, que colaboraram com afinco nesse triunfo. Na data da tomada do Morro de Arica, na primeira guerra contra a confederação Peruana-Boliviana, ai estavam elas à sua espera para adoçar as suas vidas. Inostroza faz o texto, de sete volumes, mais leve, ao relatar que muitos jornaleiros, convertidos em soldados – entre a Independência e a guerra, pouco tempo houve para reorganizar as forças amadas e as cantineras eram consideradas parte do exército.
Havia maridos que levavam as suas mulheres por não quererem ser traídos na sua ausência, sempre prolongada. É preciso lembrar que as cantineras eram jornaleiras: da mesma maneira com que procuravam trabalho pelos sítios por onde as levava o vento, assim também era a guerra um resguardo para a sua fome, a sua solidão e o dinheiro que ganhavam, era enviado à família que tomava conta dos seus filhos, nascidos no casamento ou com um afuerino qualquer ou migrante parcial, sempre em procura de trabalho, denominados também em Portugal ratinhos, caramelos, galegos que vinham procurar o sustento, como migrantes parciais.
Sempre ficava uma lembrança, um filho qualquer nascido de uma mulher afuerina ou ratinha, dos momentos livres de trabalho. O entretenimento, quer no Chile, quer em Portugal, era o erotismo ou a satisfação da libido. A fonte destes acertos, além de romances como o meu muito querido livro de Eduardo Barrios, 1969: Gran Senhor y Rajadiablos, Nascimento; La Quintrala, de Magdalena Petit, 1939, Zig-Zag, e de Ciro Alegria, 1983: El mundo es ancho y ajeno, Alianza Editorial, e os impossíveis de comentar pela sua excelência narrativa, baseada em factos pesquisados como a Crónica de una muerte anunciada, de Gabriel García Márquez, Bruguera, 1982, e esses detalhados livros sobre a vida de uma heroína, que lutou com corpo e alma na conquista do Chile, de Isabel Allende 2006, Areté: Inés del alma mia (versão lusa Ai, Mama Inês, Difel, 2006).
Textos que narram o papel da mulher durante a guerra e essa procura da satisfação da libido, como comentam Freud em 1923, Além do princípio do Prazer, ou Le moi et le ça, Payot, livro acessível em http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/index.html, resultantes da psicanálise aos seus pacientes, académicos intelectuais e vários operários, que analisava por curiosidade, como método comparativo.
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