Conversas noctívagas – Francisca Aguiar

 

 

 

Francisca Aguiar  Conversas noctívagas

 

 

(Sobral Centeno)

 

seleccionado pelo Adão Cruz  

 

 

   A Doença indicou-lhes o caminho e eles ali permanecem, mais ou menos tempo, sob a vigilância de monitores, aparelhos com bips constantes, olhos atentos e quiçá verdadeiramente preocupados.

 

É de madrugada e o sono é-lhes induzido, quer pela noite, quer pelos hipnóticos que lhes afundam levemente a consciência e os levam a viajar por outros tempos e outros lugares.

 

Nesse estado obnubilado, cada um canta o seu próprio lamento de dor, de desconforto ou solidão, que começa e acaba com um “Ai-ai-ai… Ai-ai…”. Parecem um coro desafinado e descoordenado que, na sua embriaguez, transmite um dos mais tristes, solitários e inevitáveis estados da condição humana: a Doença.

 

Mas, no meio da música queixosa, alguém fala e não canta: “- Ó Quim, Quim… Onde estás Quim?”. Os olhos permanecem fechados; a mulher está a sonhar com o seu Quim. Ela repete “- Ó Quim, Quim… Onde estás Quim?”. Quase de imediato e inesperadamente, a algumas camas de distância, alguém responde “- Hã? Estou aqui…”. Não é o Quim; tem outro nome e mergulha também noutros níveis de consciência. Continuam com a troca de palavras, numa conversa sonolenta pouco perceptível, pelo menos para mim, que me mantenho vigil e alerta, de olhos custosamente abertos. Fecho os olhos na tentativa de os alcançar mas eles já vão longe, viajam além das minhas capacidades, incluindo a auditiva. Descodifico um “A tia Rosa…”, que se perde no rápido e entrecortado fluir das palavras e sorrio. Apesar de não lhes perceber as palavras, compreendo a partilha – ambos doentes, sós e assustados.

 

Aquela conversa seria impossível se estivessem acordados – cortinas, monitores, aparelhos, bips, camas e outros doentes separam-nos fisicamente. Felizmente, as consciências inconscientes (almas?) tocaram-se enquanto dormiam e mostraram-me que as conversas não são só feitas de palavras.

 

 

3 Comments

  1. Cheio de beleza, Francisca. Não a beleza do sofrimento, mas a beleza de sermos capazes de o viver e sentir, como seres humanos, neste infinito que é a poesia da vida. A minha experiência e a minha vida entendem-te muito bem e fazem-me pensar que quem não tem dentro de si a beleza e a luz da madrugada que nasce do teu texto, por muito que estude, nunca terá dentro de si o maior valor da alma de um médico, o amor e a esperança. Um beijinho de parabéns.

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