De Santarém à Golegã (continuação IV)
Entro às três e meia na Azinhaga. Desabo num banco de madeira pintado de azul, ao lado de José Saramago no seu banco de bronze, em frente da “Taberna Central”. Depois de largar a mochila, de beber, de lavar as mãos e a cara, de limpar as lentes dos óculos, fico alguns instantes imóvel, a recuperar forças, a reabituar-me a um mundo nítido, à novidade das cores… Reparo que algumas casas têm barras também azuis, parece-me que nunca senti o impacto colorido com tanta intensidade. (Comovo-me com a beleza do mundo.)
Meia dúzia de homens à entrada do café, numerosos sentados nos bancos da praça… Vejo passar ciclistas. Encostaram aliás uma bicicleta ao banco de José Saramago, o que não lhe teria decerto desagradado: não é uma estátua, não é uma escultura, mas uma presença familiar. Saramago lê um livro, eu começo a escrever algumas linhas de diário, os homens riem-se.
– Aquela também é escritora!
(Pensam que sou estrangeira e não compreendo as conversas.).
Também me rio.
Não é pouco fácil levantar-me, pegar outra vez na mochila, que parece carregada de lingotes – só pelo peso. O resto do caminho até à Golegã, cerca de sete quilómetros, é a beira da estrada nacional. Passada a Quinta da Broa, começa a doer-me a nádega esquerda: uma dor muscular, consequência da desidratação, provavelmente. A dor torna-se de tal modo intensa que, à entrada da Golegã, sou obrigada a sentar-me num parque de merendas. Converso com três pescadores. Preparam um petisco, vão assar chouriço, insistem para eu provar o pitéu, é só atearem o lume… Agradeço mas não me demoro, consigo enfim levantar-me com muito esforço e, coxeando, arrastar-me até à Igreja Matriz, uma obra-prima do manuelino que, não obstante a dor, me obstino em visitar (encontrei-a, até ao dia de hoje, sempre fechada).
Os bombeiros voluntários acolhem-me com simpatia. Caminhei, exposta a um excessivo calor, das nove às dezassete e trinta, com três curtas paragens pelo meio: oito horas de caminhada. Bebi mais de cinco litros de água e quase não urinei – transpirei tudo. Mas consegui chegar…
