“Portugal e o Futuro” e o 25 de Abril – por Carlos Loures

  

 

 

 

Em 22 de Fevereiro de 1974 era lançado pela Arcádia o livro do general António de Spínola Portugal e o Futuro. Apesar de pressionado, Marcelo Caetano ter-se-ia oposto a que o livro fosse proibido de circular.

 

Há quem atribua uma particular importância a este livro e o considere mesmo um passo significativo, um contributo, para a eclosão do movimento libertador. Na minha opinião não teve qualquer papel, salvo talvez o de demonstrar que os salazaristas não estavam unidos – Spínola nunca fez nada que o demarcasse da clique situacionista e o livro, propondo soluções que talvez tivessem sido oportunas antes de a guerra colonial ter sido desencadeada (e mesmo assim, duvido), foi um acto político de estratégia pessoal – nada teve a ver com a conspiração dos capitães.

 

Descobrir, 13 anos depois de a guerra ter começado e com o  dispositivo militar português imobilizado na Guiné (único território, diga-se, em que a derrota era iminente), que a solução dos conflitos teria de ser política e nunca militar não será prova de grande argúcia. Todas as oposições diziam o mesmo desde o início. A solução federal logo pareceu coisa ridícula. O que me parece é que sabendo que estava em marcha uma conspiração e que o regime estava debilitado, Spínola quis demonstrar que não estava do lado de quem previsivelmente ia perder. Oportunismo que se evidenciou nos meses seguintes e que foi desaguar no 11 de Março de 1975.

 

Toda a Junta de Salvação Nacional foi constituída com base em oficiais generais cujo espírito democrático só se evidenciou quando isso deixou de ser perigoso. A corajosa atitude de Humberto de Delgado, nenhum deles alguma vez a assumiu.

 

Esta intervenção de Otelo Saraiva de Carvalho quando foi graduado em brigadeiro e empossado no comando do COPCON é, quanto a mim, exemplar. Silvino Silvério Marques acabara de fazer uma intervenção em que quase atribuía os méritos da Revolução aos generais da Junta de Salvação Nacional – idades provectas mas «juventude de espírito». Otelo, que quase ninguém conhecia, deu nas vistas com esta intervenção:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Spínola era um homem de confiança do regime salazarista.  Não lhe contesto os méritos militares. Apenas duvido do  seu espírito democrático que só se manifestou quando    tudo estava perdido para a ditadura. Portugal e o Futuro –  contributo para a democracia? Não acho. Apenas o  oportunismo de um rato fugindo de um barco que se      afundava.

 

 

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