Na Golegã
Encontro na sala de festas dos bombeiros um peregrino espanhol. Coloco o colchão do outro lado do palco, ao lado da bandeira portuguesa, tomo duche, lavo a roupa, saio para comer, com dificuldade, pois a nádega continua a doer-me, regresso e, embora não sejam sete horas, estendo-me em cima do colchão com uma garrafa de água ao lado.
Ao contrário do que se passa na maioria das cidades onde tenho pernoitado no Caminho de Santiago, aqui não me sinto frustrada por, após a longa marcha do dia, me faltarem forças para passear: a Golegã é uma terra onde inúmeras vezes vim e onde hei-de voltar muitas mais. (E o Caminho de Santiago não é turismo mas uma descoberta que só nestas circunstâncias poderei fazer.)
O espanhol vem conversar comigo. Chama-se José Arocena, não terá menos de setenta anos, é um caminhante experiente. Não se embaraça com roteiros nem setas amarelas: traz um GPS. Percorreu o Caminho del Norte, o Caminho de la Plata, várias vezes o Caminho Francés e queria percorrer o Português. Embora tenha tomado a precaução de partir em Outubro, até agora, por causa do calor, ainda não conseguiu caminhar: cada dia apanha o comboio para a etapa seguinte.
– Hay que no hacer tonterías!
Concordo. Também ignoro se amanhã estarei capaz de prosseguir. Não me inquieto demasiado, pois recupero com facilidade. Mas, até agora, nunca sofri dores musculares…
(Converso com um bombeiro que, daqui por poucos dias, parte de bicicleta com um grupo de colegas pelo Caminho de Santiago. Têm uma preparação de verdadeiros atletas: contam chegar a Compostela em cinco etapas.)
