Diário de Bordo de 24 de Fevereiro de 2012

Fernão Lopes, salvo erro na Crónica de D. João I, faz uma afirmação muito curiosa – mais ou menos isto: todos os tempos são difíceis para quem os vive. É verdade, mas todos temos sempre a sensação que os mais difíceis de todos são os que nós estamos a viver. Por uma razão simples – não vivemos outros tempos e fica-nos sempre a ideia de que as coisas estão a piorar. Basta uma leitura rápida da História, para vermos que já houve tempos piores.

 

Não usando a visão panorâmica do processo histórico, aí temos um cenário assustador – a nível nacional, a iminência de um ruptura económica que nos deixe numa miséria extrema, sem empregos, sem quaisquer apoios sociais, sem serviços de saúde, sem pensões de reforma… No plano internacional, para além de uma crise económica generalizada, como consequência desse colapso, a ameaça de um conflito alargado que, esse sim, pode ser o pior de toda a História. Temos pela frente uma nova era o que implica uma nova maneira de encarar as realidades.

 

Quando Camões dizia que Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, não estaria a falar no sentido estrito que geralmente é atribuído ao soneto. “Vontade” é vocábulo com numerosas acepções, algumas em desuso, e o poeta utilizou-a no sentido de “maneira ou disposição de interpretar a realidade”. O que hoje se designa vulgarmente por “mentalidade”. A natureza humana é imutável, mas uma das suas características é a da adaptabilidade permanente “tomando sempre novas qualidades”, ou seja, ajustando-se.

 

Estamos no limiar de uma nova maneira de viver. Ontem publicámos uma lista de “sapatos sujos” que, segundo o escritor Mia Couto, devíamos deixar à porta destes novos tempos. “Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos”. Note-se que modernidade, também deve ser lida sem a conotação elogiosa que geralmente implica.

 

O mais perigoso neste “fardo de preconceitos” é que alguns, embora comprados por tuta e meia na loja do chinês, assumem o aspecto de inovação, de fruto de uma suposta evolução das mentalidades que mais não é do que a rendição de princípios a realidades por vezes abjectas. O “politicamente correcto” é, em geral, a imposição de um pensamento único. Aquilo que Mia Couto caracteriza como “a ideia de que para sermos modernos, temos que imitar os outros”.

 

Esta imitação dos outros, falando apenas do nosso país, leva-nos a usar expressões das telenovelas brasileiras (ouço-as a adversários do AO), a consumir aquilo que os anúncios televisivos nos mandam consumir, a aceitar anormalidades comuns como sendo coisas normais e por exemplo, nos actos eleitorais, a votar maioritariamente no PSD ou no PS.

 

E passando depois a legislatura a queixar-nos de que “as coisas nunca estiveram tão mal”.

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