Globalização e Desindustrialização – 4ª Série. Por Júlio Marques Mota.

Capitulo I. Retratos da Desindustrialização

 

1.9  Como os Estados Unidos perderam o trabalho de fabricação dos iPhone – III

 

CHARLES DUHIGG and KEITH BRADSHER

 

(Continuação)

 

 

Dias de pagamento para a Apple


Como as operações no exterior da Apple e as suas vendas se expandiram, os seus funcionários de topo têm prosperado. No último ano fiscal, os rendimentos da Apple ultrapassaram 108 mil milhões de dólares, uma soma maior do que o orçamento do Estado combinado de Michigan, Nova Jersey e Massachusetts. Desde 2005, quando as acções da Apple foram distribuídas o valor destas subiram de 45 dólares para mais de 427 dólares.


Alguma desta riqueza foi distribuída pelos accionistas. A Apple está entre as empresas com as acções mais valorizadas e a subida do valor das suas acções tem beneficiado milhões de investidores individuais, 401 (k) ‘s e planos de pensão de reforma. A recompensa também tem melhorado a posição dos trabalhadores da Apple. No último ano fiscal, para além dos seus salários, os empregados da Apple  e os seus directores receberam acções no valor de  2 mil milhões de dólares e exercerem as suas stock options ou investiram  em acções num valor adicional  1,4 mil milhões de dólares.


As maiores recompensas, no entanto, têm ido frequentemente para os altos funcionários  da Apple. Cook, chefe da Apple, recebeu no ano passado como valor da oferta de acções – que investiu sobre um período de 10 anos –que ao preço de hoje valem 427 milhões de dólares  e o seu salário foi elevado para 1,4 milhões. Em 2010,.o envelope das remunerações globais de Cook foi avaliado em 59 milhões, de acordo informações vindas da Apple.


Uma pessoa próxima da Apple argumentou que as remunerações recebidas pelos empregados da Apple foram justas, em parte porque a empresa tinha obtido muitíssima riqueza para a nação e para o mundo. Como a empresa tem crescido, esta tem aumentado o seu volume de emprego na América, incluindo empregos na indústria transformadora. No ano passado, a força de trabalho americana na Apple cresceu de 8.000 pessoas.


Enquanto outras empresas enviam os seus call centers para o exterior, a Apple manteve os seus centros nos Estados Unidos. Uma fonte estima que as vendas de produtos da Apple deve ter levado a que outras empresas tenham contratado dezenas de milhares de americanos. FedEx e a United Parcel Service, por exemplo, dizem ambas terem criado empregos nos Estados Unidos por causa do volume de produtos da Apple transportados, embora nenhuma delas tenha fornecido dados específicos sem a permissão da Apple, o que a empresa se recusou a permitir.


“Nós não devemos ser criticados por empregarmos trabalhadores chineses”, disse um actual alto-quadro da Apple. “Os EUA deixaram de formar pessoas com as competências de que precisamos.”


Além disso, fontes da Apple dizem que a empresa criou muitíssimos bons empregos aos americanos nas lojas de venda ao consumidor entre os empresários que venda aplicações para os iPhone e os iPad.

 

Depois de dois meses de testes sobre os iPads, Eric  Saragoza saiu. O salário era tão baixo que ele estava melhor, assim o pensou, passando o tempo  à procura de outros empregos. Numa noite de Outubro passado Saragoza sentou-se com o seu MacBook e submeteu mais uma rodada de currículos on-line, para quase meio mundo  quando uma mulher chegou ao seu escritório. A trabalhadora, Lina Lin, é uma gestora de projecto em Shenzhen, China, em PCH International, que tem contratos com a Apple e com outras empresas de material electrónico para coordenar a produção de acessórios, como as capas que protegem os visores em vidro do iPad. Ela não é uma funcionária da Apple. Mas Lina Lin é parte integrante da capacidade da Apple para oferecer os seus produtos.


A senhora Lin ganha um pouco menos do que Eric Saragoza ganhava quando pago pela Apple. Ela fala fluentemente inglês, língua que aprendeu a ver televisão e numa universidade chinesa. Ela e o seu marido colocavam mensalmente um quarto dos seus salários numa conta bancária. Eles vivem num minúsculo apartamento que compartilham com os seus sogros e o filho.


Há muitos empregos “, disse Lin. “Especialmente em Shenzhen.”


Perdedores da inovação


Já quase para o fim do jantar de Obama com Jobs e os outros executivos de Silicon Valley, no ano passado, quando toda a gente se levantou para sair, o Presidente foi rodeado por uma multidão de gente a querer tirar uma fotografia ao seu lado. Um grupo ligeiramente menor rodeou Steve Jobs. Os rumores tinham-se difundido de que a sua doença piorara, e alguns esperavam para ter uma fotografia com ele, talvez pela última vez.


.Eventualmente, tratava-se de órbitas de homens sobrepostos. “Não estou preocupado com o futuro do país a longo prazo”, disse Obama a Steve Jobs, segundo um observador. “Este país é espantosamente grande. O que me preocupa é o facto de não falarmos o suficiente sobre as soluções. “


No jantar, por exemplo, os altos quadros das grandes empresas americanas  sugeriram que o governo deveria reformar os programas de vistos de entrada para ajudar as empresas a contratar engenheiros estrangeiros. Alguns sugeriram mesmo ao presidente que desse às empresas um “feriado fiscal” para que elas pudessem regressar com os seus lucros do exterior, o que, segundo eles, poderia ser utilizado para criar postos de trabalho. Steve Jobs ainda sugeriu que ainda poderia vir a ser possível, algum dia, relocalizar alguns dos produtos da Apple tecnologicamente muito evoluídos nos Estados Unidos se o governo ajudasse a formar mais engenheiros americanos.


Os economistas debatem a utilidade destes e de outros esforços, e note-se que uma economia em dificuldades  é, por vezes, transformada por desenvolvimentos inesperados. Os analistas na última vez torciam as mãos sobre o desemprego americano prolongado, o desemprego de longa duração, por exemplo, no início de 1980 quando  a Internet praticamente não existia. Poucos na época teriam imaginado que uma licenciatura em design gráfico se tenha tornando rapidamente numa aposta inteligente, enquanto que aqueles que  estudavam matérias  sobre a reparação de telefones entravam para um beco sem saída.


O que permanece desconhecido, contudo, é se os Estados Unidos serão no futuro imediato capazes de alavancar inovações que gerem  milhões de empregos.


Na última década, os grandes saltos tecnológicos na energia solar e eólica, na fabricação de semicondutores e nas  tecnologias de imagem criaram milhares de empregos. Mas, enquanto muitas daquelas indústrias nasceram  nos Estados Unidos, muito do emprego gerado ocorreu no exterior. As empresas têm fechado grandes instalações nos Estados Unidos para reabrirem na China. A título de exemplo, os dirigentes das grandes empresas dizem-nos que estão a concorrer com a Apple a favor dos accionistas. Se eles não podem competir em crescimento e em margens de lucro com a Apple então eles não irão sobreviver.


“Os empregos para a nova classe média estarão talvez a aparecer “, disse Lawrence Katz, um economista de Harvard. “Mas será que alguém na casa dos seus 40 anos tem a formação profissional que lhes seja adequada? Ou será que vai ser ultrapassado por um novo graduado e nunca irá reencontrar o seu caminho de regresso à classe média?


O ritmo da inovação, dizem os altos dirigentes de um largo leque de indústrias, tem sido acelerado por empresários como Steve Jobs. A empresa G.M. gastou perto de metade de uma década apenas para redesenhar os seus principais carros. A Apple, por comparação, lançou cinco iPhones em quatro anos e enquanto com isso dobrava a velocidade dos dispositivos de memória e fazia descer deixar cair o preço que alguns consumidores pagam.


Antes de Obama e Jobs se dizerem Até à próxima o executivo da Apple tirou do bolso um iPhone para mostrar uma nova aplicação – um jogo de condução – com gráficos incrivelmente detalhados. O dispositivo reflectia o brilho suave das luzes da sala. Os outros executivos, cujo valor combinado ultrapassava os 69 mil milhões de dólares, empurraram-se para conseguirem ver melhor e olhar por cima do ombro. O jogo, todos concordaram, era maravilhoso.


Não havia mesmo nenhum risco, por mínimo que fosse , no visor do iPhone.


David Barboza, Peter Lattman and Catherine Rampell contributed reporting. New York Times.

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