Israel – Vida difícil – 1 – por Carlos Loures

 

No artigo anterior tentei explicar como a criação do Estado de Israel, uma prepotência da diplomacia britânica, provocou grande perturbação na região em que foi implantado. Vou recordar as primeiras três décadas de vida do estado hebraico. A vida não foi fácil para os que escolheram viver na «Terra Prometida».

 

Falar dos alvores de Israel, é falar de David Ben Gurion (1886-1973), cuja carreira política se iniciou em 1933, sendo um dos líderes do movimento do Sionismo Trabalhista durante os quinze anos anteriores à criação da nação judaica. Idealista e pragmático, combateu os britânicos, tendo integrado o Irgun de Menachem Begin. Participou em actos de terrorismo e em assaltos a bancos. Porém, não hesitou depois em apoiar o exército britânico, enquanto criava estruturas de imigração clandestina, quando os ingleses, pressionados pela comunidade internacional, bloquearam a ida de judeus para a Palestina. Foi Ben Gurion quem recuperou a palavra hebraica Yishuv para designar os judeus residentes na Palestina antes da fundação do Estado de Israel. Os residentes e os novos colonos, são designados por “os Yishuv” ou “Ha-Yishuv”- judeus chegados antes da fundação.

 

Criou também a Haganah, braço armado do Movimento Sionista-Trabalhista, embrião da Mossad, a polícia secreta e das forças armadas de Israel. Apesar desta actividade, subversiva e clandestina, no período anterior à fundação, Ben-Gurion foi um dos principais políticos judaicos, sendo considerado um elemento moderado. No dia 12 de Fevereiro de 1949, este homem, David Ben Gurion, assumiu as funções de primeiro-ministro do Estado de Israel. No mesmo dia foi assinado um armistício com o Egipto.

 

O primeiro mandato de Ben Gurion incidiu na criação de estruturas institucionais que permitissem o normal funcionamento do jovem estado e também no reforço dos meios militares para poder fazer face às investidas dos países árabes vizinhos. Sobretudo do Egipto. Egipto onde, em 26 de Julho de 1952, se deu um levantamento militar, encabeçado pelo Movimento dos Oficiais Livres, liderado pelo general Muhammad Naguib, rebelião que derrubou o rei Faruk e pôs termo ao regime monárquico, proclamando a república em 18 de Junho de 1953. Um dos motivos, além do desprestígio internacional que afectava o monarca, foi precisamente a derrota na primeira Guerra israelo-árabe em 1948. Naguib foi nomeado Presidente, mas em Novembro de 1954, um golpe militar liderado por Gamal Abdel Nasser derrubou Naguib. Nasser assumiu, por sua vez, a chefia do Estado. Com Nasser, as relações com o Ocidente endureceram.

 

O Egipto, pela voz de Nasser, na Conferência Ásia-Àfrica, realizada em Bandung, Indonésia, em 1955, que deu início ao Movimento dos Países Não Alinhados, advogou a descolonização, afrontando as democracias ocidentais e estreitando relações com a União Soviética que lhe fornecia armamento. Este crescimento do poder militar egípcio teria efeitos no apoio que Israel iria receber das democracias europeias, sobretudo da França, e dos Estados Unidos. Entretanto em Israel, Moshe Sharett substituiu Bem Gurion no cargo de Primeiro-Ministro entre Janeiro de 1954 e Julho de 1955. Sharett foi um político apagado, sem carisma. Constava mesmo que era Ben Gurion que governava Israel e que Sharett era por ele manipulado.

 

Em Julho de 1955, Ben Gurion foi reeleito Primeiro-Ministro, pois um erro do ministro da Defesa, Pinhas Lavon, que desencadeou a desastrosa Operação Suzzanah, em que a aviação israelita atingiu alvos americanos e britânicos no Egipto, minou o pouco que restava da popularidade de Sharett. Durante o segundo governo de Ben Gurion, teve lugar a Campanha do Sinai. O carácter autoritário e personalista de Ben Gurion criou-lhe muitos inimigos, dentro e fora de seu Partido Trabalhista. Desgastado, Ben Gurion deixou o cargo em 1963. Levi Eshkol, ex-ministro da agricultura, substituiu Ben Gurion. Eshkol negociou com a Alemanha Ocidental o pagamento de reparações financeiras aos sobreviventes do Holocausto.

 

Fez esforços no sentido de melhorar as relações com a União Soviética, o que deu possibilidade a uma pequena onda de imigração de judeus soviéticos para o estado judaico. Porém, as relações israelo-soviéticas voltaram a piorar com a eclosão da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Eshkol, com o seu sistema nacional de águas, possibilitou um incremento na agricultura e a colonização de áreas desérticas de Israel. Faleceu de ataque cardíaco, em Fevereiro de 1969, quando ocupava ainda o cargo de Primeiro-Ministro.

 

(Conclui amanhã)

Leave a Reply