Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Nota de leitura
Júlio Marques Mota
Um texto que Passos Coelho gostará de ler. Na sua sanha de destruição do futuro deste sítio, outrora país e que país há-de voltar a ser, não lhe bastarão na consciência política, as dezenas de mortes que ficam social e economicamente por assumir, por gente que com a gripe, o frio, a falta de dinheiro, ao hospital não terá ido ou não terá podido ir, não, teremos ainda a formação técnica e política de todo um país que se está fortemente a diminuir. Por causa deste objectivo, teremos os milhares de professores que esgotados abandonaram a sua profissão de décadas e já não basta ao actual governo encher as Universidades de monitores em substituição dos professores e as vagas nos liceus preencher com jovens licenciados, agora em situação de precariedade quase que absoluta, é necessário também colocar as salas de aulas a abarrotar de alunos porque pura e simplesmente é necessário roubar ao país o seu futuro para com esse espólio satisfazer a ganância dos mercados alimentares. Esse é o trajecto actual do ensino em Portugal, do pré-primário ao superior.
Da América, dos rufias dos Tea Party e dos seus representantes mais um exemplo de que para além Atlântico as linhas de força da direita e extrema direita são as mesmas que o nosso executivo preconiza, pela mão de um Nuno Crato de democrata já esquecido. Um exemplo que o chefe do executivo português gostará de conhecer, um texto de Paul Krugman, aqui vos deixo.
A força está na ignorância
Paul Krugman
O apoio na América à educação tem sido um campo em que os americanos sempre foram excepcionais. Em primeiro lugar nós, os americanos, assumimos a liderança na educação primária universal; em seguida, o movimento de “high school” fez de nós a primeira nação a dar uma enorme importância à generalização do ensino secundário. E depois da II Guerra Mundial, o apoio público concedido, inclusive o G.I. Bill e uma enorme expansão das universidades públicas, ajudou uma grande número dos americanos a obter o grau do ensino superior.
Mas agora um dos nossos dois grandes partidos políticos fez uma forte e violenta viragem à direita contra a educação, ou pelo menos contra a educação que os trabalhadores americanos podem pagar. Notavelmente, esta nova hostilidade à educação é partilhada pelas alas conservadoras, do ponto de vista social e económico, da coligação republicana, agora materializadas nas pessoas de Rick Santorum e Mitt Romney.
E esta posição dos republicanos surge num momento quando a educação na América está em grandes dificuldades.
Sobre essa hostilidade: o candidato republicano Santorum já deu aso a muitas manchetes nos jornais ao declarar que o presidente Obama quer aumentar o número de estudantes inscritos no secundário e na Universidade porque as Faculdades são “moinhos de doutrinação” que destroem a fé religiosa. Mas a resposta de Romney para um estudante do secundário preocupado com os custos das propinas nas Faculdades é sem dúvida ainda mais significativa, porque o que ele disse aponta o caminho para as opções políticas reais que irão prejudicar ainda mais o nível de formação e educação na América.
Aqui está o que o candidato disse ao aluno: “não vá para uma faculdade que tenha as propinas mais caras. Vá para uma que tenha propinas mais baixas onde poderá obter uma boa educação. E, tenho a esperança, estou seguro que encontrará. E não espere que o governo venha a perdoar a dívida que com isso irá assumir. “
Heia. Uma posição tão forte, para o que tem sido a tradição da América na sua ajuda aos estudantes. E a observação de. Romney era ainda mais insensível e destrutiva do que poderíamos pensar, tendo em conta o que tem acontecido ultimamente no ensino superior americano.
Para as nossas últimas gerações, escolher uma escola mais barata significa geralmente ir para uma universidade pública em vez de uma universidade privada. Mas nestes dias, o ensino superior público está ainda muito mais cercado pela falta de meios e a enfrentar cortes orçamentais ainda mais duros do que o resto do sector público. Ajustado pela inflação, o apoio do Estado para o ensino superior tem caído cerca de 12 por cento nos últimos cinco anos, mesmo tendo em conta que o número de estudantes tenha continuado a aumentar; na Califórnia, o apoio público reduziu-se mesmo em cerca de 20 por cento.
Um dos resultados tem sido o crescimento do custo das propinas. Ajustadas à inflação a taxa de inscrição nas faculdades públicas de cursos de quatro anos aumentou em mais de 70% na última década. Então, boa sorte em encontrar essa faculdade “que tem propinas um pouco mais baixas.”
Um outro resultado é que as dificuldades financeiras das instituições de ensino têm levado a cortes nas áreas que lhes saem mais caras a ensinar — que por seu lado são as áreas de que a economia americana mais precisa.
Por exemplo, diversas faculdades públicas em vários Estados, incluindo na Flórida e no Texas, eliminaram departamentos inteiros em engenharia e ciência da computação.
Os prejuízos que estas alterações irão fazer — quer do ponto de vista das perspectivas económicas do nosso país quer do ponto de vista da destruição do sonho americano da igualdade de oportunidades — são bem óbvios. Então porque é que os republicanos estão com tanta vontade de dar cabo da qualidade do nosso ensino superior?
Não é difícil ver o que está por detrás das intenções da ala do Partido que apoia Santorum. A sua principal ideia quanto à frequência na Universidade é que esta mina a fé, o que é falso. Mas tem razão em considerar que o nosso sistema de ensino superior não é um terreno favorável ao desenvolvimento da actual ideologia conservadora. E não são somente os professores das artes e das letras : entre os cientistas, os professores publicamente assumidos como democratas superam os republicanos na proporção de nove para um.
Pessoalmente penso que Santorum veria isso como a evidência de uma conspiração liberal. Outros poderiam sugerir que os cientistas têm dificuldade em apoiar um partido em que a negação das alterações climáticas se tornou um teste político e em que a recusa em aceitar a teoria da evolução tem e bem da mesma maneira um estatuto semelhante.
Mas quanto a pessoas como Romney? Pessoas como ele não terão uma participação no futuro êxito económico da América, que pode estar a ser comprometido pela cruzada contra a educação? Talvez não seja tanto quanto se pensa.
Afinal de contas, ao longo dos últimos 30 anos, tem havido uma atordoada desconexão entre os enormes rendimentos ganhos no topo da escala de rendimentos e a lutas da maioria dos trabalhadores. Poder-se-á pensar que o egoísmo da elite americana é melhor servido pela garantia de que esta desconexão continue então o que, por seu lado, significa manter baixas as taxas de tributação sobre os rendimentos mais elevados custe o que custar, querendo assim ignorar as consequências em termos da pobreza das nossas infra-estruturas, altamente deficientes, e em termos de uma mão-de-obra tecnicamente mal preparada.
E se a necessidade de verbas para educação pública deixa muitas crianças de menos abastados rendimentos excluídas da mobilidade ascendente, bem, será realmente de acreditar que estamos a assegurar a existência da igualdade de oportunidades?
Assim, sempre que ouvirmos os republicanos dizerem que são o partido dos valores tradicionais, tenha em mente que estes realmente fizeram uma ruptura radical com a tradição da América da valorização pela educação. E eles geraram esta ruptura porque os republicanos acreditam que o que cada um de nós não sabe não os pode prejudicar a eles. Por outras palavras, para os republicanos quanto mais ignorantes nós formos, melhor.
Paul Krugman, Ignorance Is Strength, 8 de Março de 2012
