Um dos aspectos mais preocupantes da vida hoje em dia é o dos conceitos incutidas pelos mais diferentes meios, a começar pela comunicação social, e que influenciam profundamente o nosso dia a dia. São ideias muito gerais, que nos aparecem de um modo difuso, mas que têm uma influência enorme sobre os actos e a vida do comum das pessoas. São aceites de um modo passivo, na medida em que a maioria não lhes dedica uns minutos sequer, para as ponderar e pensar na sua origem e nos seus efeitos. Nunca houve, na história da humanidade, tanta informação, nem tanto conhecimento. Mas também nunca terão existido tantos conceitos, tão divulgados e com peso tão grande e, ao mesmo tempo, aceites de um modo tão pouco crítico por tanta gente.
Um dos mais divulgados e com mais influência, é sem dúvida o do comércio livre. Das supostas vantagens que o comércio livre, a livre circulação de bens e serviços, acarreta para a sociedade em geral. Entretanto, um número considerável de pessoas já constatou as enormes contradições que resultam na prática deste conceito. Desde as nações que o proclamam como um princípio, mas que na prática procuram apenas os seus benefícios, e defendem-se a todo o transe dos encargos dele resultantes, até às dificuldades reais que resultam do seu exercício, muitas vezes à mistura com erros graves de julgamento. O combate ao proteccionismo tem sido um princípio quase sagrado das políticas dos países ocidentais, que há muito que associam a ideia do comércio livre à democracia e à liberdade. É digno de estudo cuidadoso o que se passa com a União Europeia a este respeito.
Contudo, esta associação de ideias parece estar a ser posta em causa. Por um lado, os defensores do socialismo e a esquerda em geral têm levantado objecções. Entretanto, a queda da URSS deu aos defensores do comércio livre (com as ressalvas acima resumidas) um grande fôlego, reforçado pela adesão das correntes social-democratas à ideia da imprescindibilidade do capitalismo, com o advento da terceira via de Anthony Giddens. Mas a ascensão da China e de outros países asiáticos veio baralhar esta ideia.
Numerosas análises têm sido feitas a este respeito. Uma das mais interessantes é sem dúvida a de Paul Craig Roberts, antigo Secretário de Estado do Tesouro de Ronald Reagan e apontado como o pai das reaganeconomics. É verdade que posteriormente tem sido crítico da administração Bush, adversário de Israel (o que aliás lhe valeu a acusação de anti-semitismo, outro conceito muito divulgado, de modo pouco rigoroso, e com o objectivo de confundir e difamar) e contestou mesmo a versão oficial do 11 de Setembro. Mas é claríssimo que está longe, muito longe, de ideais comunistas, esquerdistas ou outros do género. A Viagem dos Argonautas já publicou vários escritos seus, pela mão do argonauta Júlio Marques Mota, o último dos quais já este mês, há três dias, sob o título Como a economia se perdeu, condenada pelos mitos da livre-troca. Neste texto expõe várias ideias, das quais algumas com certeza merecerão discordância de vários quadrantes, mas que no conjunto nos dão uma visão alargada e bastante dos problemas da política económica norte-americana e internacional. Diário de Bordo salienta as análises que Craig Roberts faz aos métodos seguidos na deslocalização de empresas, à titularização dos pagamentos dos juros das hipotecas (os produtos derivados) e aos resultados da manutenção do dólar como moeda reserva. Dá uma grande ajuda para, mesmo os que não se interessam por economia, conseguirem perceber o sarilho em que estamos metidos.

