Para um desmantelamento concertado do euro – Colectivo de autores.

 

 

A verdadeira causa da crise do euro, é o aumento inexorável da dívida externa em metade dos países da região. A necessidade de recorrer ao capital estrangeiro indica que a questão crítica é que os seus próprios recursos não foram  utilizadosde modo suficiente para desenvolver as capacidades produtivas dos países em causa e torná-los competitivos. Se se separam os créditos que tem cada um dos países, a dívida externa líquida afecta dois terços dos membros da zona do euro.

 

Os mais afectados são os países menos competitivos, tais como a Grécia, Portugal e a Espanha assim como a Irlanda. Um segundo grupo de países inclui a Itália, onde a dívida externa líquida é de 27%, e a França, dos quais 30% são devidos essencialmente à acumulação de saídas de capital em  investimento directo no estrangeiro; para a Finlândia e a Áustria, a dívida líquida permanece mínima e esta representa menos de 8% do seu PIB. Não só os outros países da zona euro não são afectados, mas em vez disso são os créditos líquidos externos que aparecem para os Países Baixos, para a Bélgica, para o Luxemburgo e sobretudo para a Alemanha.

 

Nestas condições, a obstinação dos governantes em se precipitarem, a marcha forçada, no impasse do euro só  pode conduzir a um agravamento geral da situação económica na Europa. Se bem que osnossos concorrentes americanos e chineses têm interesse na sobrevivência da moeda única europeia, esta moeda  está  condenada, mais cedo ou mais tarde, a uma explosão incontrolável. Portanto, para evitar esta catástrofe, os signatários deste texto propõem que uma concertação europeia seja desencadeada de modo responsável parase alcançar o necessário desmantelamento do euro. Isto poderá ser feito segundo as seis modalidadesseguintes:

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1.As moedas nacionais serão recriadas em cada um dos países da zona. Isto será alcançado através da troca dos eurosexistentes  contra uma unidade deste dinheiro novo, agora criado. Para as notas, será suficiente um curto período de transição, durante o qual antigas notas emitidas por cada banco nacional e que têm  hoje um sinal distintivo por país (“U” para França ) –serão marcadas  com um carimbo, até que uma quantidade suficiente das novas notas sejam  impressas para uma troca. Quanto às moedas, a troca pode ser feita muito rapidamente uma vez que estas  já têm uma face nacional.

 

2. Na data do desmantelamento do euro, as paridades monetárias das novas moedas nacionais, entre si, serão definidas de comum acordo, para restabelecer as condições normais das trocas comercias e financeiras. Esta é a única maneira de resolver adequadamente o problema principal, que é oa das dívidas externas líquidas. Ter-se-á  em conta o aumento dos preços para cada país desde a criação do euro e a situação do seu comércio externo. As desvalorizações ou reavaliações necessárias serão definidas face a uma unidade de contaeuropeia  em que o valor internacional será calculado pela média ponderada da taxa de câmbio das moedas nacionais, como foi o caso do antigo ecu..

 

(3) No interior de cada país permanecerão inalteradas, na  data do desmantelamento do euro, na data da saída do euro,  os preços de bens e serviços,  os valores dos activos e o valor das contas bancárias. O desaparecimento do euro fará com que a dívida pública de cada Estado seja  convertida em moeda nacional correspondente,   quaisquer que sejam os credores, com exclusão daqueles que detêm   créditos comerciais. Por outro lado, as dívidas externas dos agentes privados, bem como os seus créditos comerciais externos , serão convertidos na unidade de conta europeia. Embora esta solução favoreça os  países fortes e desfavoreça os países fracos, ela é a única  realista para assegurar a sustentabilidade dos contratos anteriormente.

 

(4) Sem que seja necessário estabelecer um controle cambial, todos os governos irão declarar umas férias da banca por um período limitado. Os governos irãofechar temporariamente os bancos para determinar aqueles que são viáveis e aqueles que terão de recorrer ao Banco Central. As cotações serão bloqueadas durante este período. A solução será a de um princípio universala decidir que a garantia será suportada pelos bancos centrais, que este abandonará a sua independência e retomará o estatuto de antes da década de 1970. O Estado protegerá os aforradores, se necessário, assumindo o controlo de uma parte do sistema bancário, se tal for necessário.

 

(5) As taxas de câmbio nominais dasmoedas  nacionais permanecerão definidas, durante o mesmo período, de acordo com as paridades fixadas por acordo comum. Em seguida, elas terão uma flutuação concertada no mercado, com uma margem de flutuação de ± 10%. Em seguida, um novo sistema monetário europeu, poderia ser estudado para estabilizar as taxas de câmbio reais.

 

(6) Esta operação seria facilitada se, previamente ao  desmantelamento do euro, a sua taxa de câmbio tiver  sido fortemente depreciada  face às outras moedas. O fim do euro como moeda cara, sobre-avaliada, provavelmente não será  aceite pelos nossos parceiros ou pelo Banco Central Europeu, mas a França poderá  contribuir previamente fazendo revogar a lei Giscard.de 1973. Esta, queproíbe o financiamento da dívida pública pelo Banco Central, tinha sido  consolidada uma vez no Tratado de Maastricht e, em seguida, uma segunda vez no Tratado de Lisboa.

 

No futuro, nós acreditamos que não podemos manter  o impasse sobre os problemas que foram escondidos  pela crise do euro, sobretudo o disparar da criação monetária  privada e também a deriva mundial dos  sistemas bancários, a consequência da abolição da lei Glass-Steagallcriada em 1933 e abolida em 1999.

Nota. Na  sequência da crise de 1929 a lei Glass-Steagall, a legislação bancária, determinou, em especial, a separação entre  bancos comerciais e bancos de investimento dos EUA.

 

Pour un démontage concerté de l’euro, colectivo de autores :  : Gabriel Colletis, Alain Cotta, Jean-Pierre Gérard, Jean-Luc Gréau, Roland Hureaux, Gérard Lafay, Philippe Murer, Laurent Pinsolle, Claude Rochet, Jacques Sapir, Philippe Villin, Jean-Claude Werrebrouck, économistes.Gabriel Colletis, Alain Cotta, Jean-Pierre Gérard, Jean-Luc Gréau, Roland Hureaux, Gérard Lafay, Philippe Murer, Laurent Pinsolle, Claude Rochet…Le Monde, 24.12.2011.

 

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