Platão em A República equaciona Poder e Justiça e, para equilibrar ambas as coisas preconiza um governo composto por “homens bons” escolhidos entre os melhores A alternativa é um o governo da “turba”.Isto posto, em termos actuais, define os governos de «homens bons» que pelo voto escolhemos entre os melhores. A “turba”, será o poder popular. No fundo, a eterna dicotomia entre democracia representativa e democracia directa.
Mário Soares e António José Seguro debateram na passada quarta-feira a posição a assumir pelo PS em relação ao Tratado Orçamental. Num artigo publicado na terça-feira no Diário de Notícias, o fundador do Partido Socialista afirmara que este era «um Tratado que os socialistas não podem ratificar». Os socialistas não o poderão ratificar, mas a actual direcção do PS, que nada tem a ver com o socialismo, fá-lo-á . Desta vez a voz do dono não passou da campânula para o animal que finge escutar.
Um diálogo de surdos. Metáforas aparte, Seguro está numa encruzilhada – convinha-lhe ter o fundador do seu lado, mas não pode ceder – os compromissos estão assumidos e os princípios da social-democracia que figuram nas bases programáticas do PS, não podem atrapalhar os fins que Seguro e a gente que se apoderou do partido visam alcançar. Soares está a falar com gente «pragmática» que tem de alcançar o poder – chamando a atenção para os lapsos do actual executivo, mas não assustando os seus verdadeiros donos – garantindo uma evolução na continuidade.
Mas Mário Soares não se pode queixar. Foi ele quem, após a queda da Ditadura, mais se esforçou para que o poder não caísse nas mãos da turba, como definiu Platão o poder popular. Nas mãos dos homens bons, usando também a platónica expressão, é que o poder está bem. Os homens bons – todos sabemos quem são – não querem saber dos princípios do PS, nem de quaisquer outros. E Seguro ou faz o que lhe mandam ou deixa de ser candidato a primeiro ministro. Com um estalar de dedos de um homem bom, outro saltará para a arena.
Soares e os socialistas só podiam fazer uma coisa – refundar o PS – obrigar Seguro e o seu grupo de carreiristas a assumir-se como neo-liberais – se é que se podem assumir como tal. Ao deixar que esta gente use o partido, os socialistas estão a ser cúmplices de uma farsa de má qualidade.

