Levantamento da cidade de Lisboa – Maria Velho da Costa

 

 

Maria Velho da Costa  Levantamento da cidade de Lisboa

 

 

 

 

(Queremos lembrar hoje aqui o homem digno, o político sério que foi Miguel Portas. Deixou-nos um legado que é preciso não perder)

 

 

‘E as moças, sem nenhum medo,

apanhando pedras pelas herdades,

cantavam, altas vozes, dizendo:

Esta é Lisboa prezada,

mirá-la e deixá-la’.

 

FERNÃO LOPES.

CERCO  DE  LISBOA

 

‘Queremos ir buscá-los, desta vil

Nossa prisão servil:

É a busca de quem somos, na distância

De nós’.

 

FERNANDO  PESSOA.

MENSAGEM

 

 

   Vocês pagam. Os meus melhores filhos novos foram levados a sujar-se sem honra, ao engano. As minhas ruas foram silenciadas, os meus emissores de som e imagem, boca e olhos de ouvir-me, trocados pelos vossos. Abrigo há gerações o que vocês não podem nem que­rem — faquistas e ciganos e prostitutas velhas, maríti­mos e crioulos fugidos à fome. Tudo acoitei na minha barriga de ruas salitrosas, calçadas pretas. Vocês pariam padres e freiras, embiocavam misérias, faziam seguir comboios de sobras de gente, e barcos, conservaram sem brio solares e feitorias de família, encostados ao meu bojo fecundo, amolecida, que nada vos negava. Resisti e abrigava, focos de clandestinos, de inteligência, passa­gens, de pátria aventurosa. Vocês tomavam chá e a bolsa, a terra feita coisa de quintal, o ânimo um bafo de pipa em trânsito. Vocês pagam. Semearam entre os meus soldados jovens a discórdia, pior, a indecisão e a culpa. Negociaram por cima da minha cabeça os vossos ajustes de vinhateiros, negreiros, chulos da rameira que eu vos fui, deixando as minhas artérias latir do vosso berreiro de vitelos de oiro, o meu rossio airoso, as minhas flores e jorros de água cobertos da baba de quem não soube sequer defender o roubado. Vocês pagam. Tomaram-me por fácil, aberta de todos, as ruas desertas de espanto, os meus operários da minha cintura garrida aterrados do silêncio sofrido dos mestres, sem ter onde bater, a quem pedir contas ou acudir. Os meus soldados sem saber de quem. Besta vendida que fui, agachada e de pernas abertas às portas de Belém, enfeitada como a rameira que sou, mas ida por bem, confiada, levando no avental acudido à pressa o meu melhor, a gente do trabalho a enxugar as mãos pelo caminho, os filhos do sul que me sagraram há centenas de anos cabeça da grei, desmiolada mas liberta, mas santa, mas pronta para toda a alegria, a novidade. Vocês pagam. Tremeram de me ver nua finalmente, coberta de panos vermelhos, a minha gente desfilando com as cabeças martelos de aço colorido, o punho no .ar, o meu braço faquista finalmente ao léu. Vocês tremeram, daqui ao Oriente que a minha virtude de arejar vos abriu. Vocês tremeram quando os meus filhos de salário de fome e os meus mulatos vos mijaram em foice os palácios que vocês mandaram construir para as vossas visitas de provincianos ricos. Um por um vocês hão-de pagar um só cabelo que ousarem tocar dos que levantaram as mãos a saudar-me, a libertar-me a ventura. Vocês cortaram-me da ala que me fazia com cantos e gritos a limpa namorada da vida reavida.

 

Vocês calaram-me as vozes, cortaram-me os acessos com mercenários azedos, prometeram-me em falso. Fui posta numa grande noite de quietação e vergonha e pala­vras ríspidas, sem que nenhum homem se levantasse a dizer-me, ‘Louvada sejas, cidade, pela tua crença e hos­pitalidade sem raias’. Sem que nenhum homem abrisse o peito a dizer-me, ‘Foste traída, cidade, toma o meu corpo, para que possas ao menos vestir-te de vermelho diante do riso dos povos’.

 

Porque vocês tombaram Santiago e Madrid no sangue e na agonia. A mim querem guardar-me na memória dos meus ridícula e indecisa, lembrada como fácil e tacanha, cidade sem tino e lorpa, cantadeira só. Vocês pagam, que a revolução que eu trazia não era só a da justiça.

 

Todos, todos se calaram perante a minha miséria miúda, a minha crença mentida, os meus flancos de rio indus­triosos estancados, o tolhimento dos meus bairros de lata, as minhas veias cortadas a doer-se para o sul, traídas, traídos, porque eu, posta como estava na minha festa tonta, nas minhas renovadas alegres forças, deixei que vocês viessem pela calada esquartejar uma por uma as minhas cabeças de prata, os meus melhores filhos tres­loucados de uma outra razão e audazes. Vocês pagam. Tenho os olhos enxutos para ver os conluios secretos para silenciar-me. Tenho os olhos enxutos para guardar na memória os que traíram como para salvar-me. Conheço essa palavra e essa lei de ordem. Meio século é quanto basta. Guardarei um por um os nomes dos que fecharam as portas das minhas ruas, das minhas casa, das minhas noites. E tardarei menos, porque estava pronta quando vieram estorvar-me.

 

Eu sou aquela assente sobre rocha preta, chão de con­vulsões. Eu sou aquela que gerações de homens sem terra pagaram com sangue para consolidar. Não foram ingleses e lojistas e feirantes os que me erigiram assim airada e vulnerável por cima de colinas. Fêmea serei, mas em cada uma das minhas vielas há duas mil facas e línguas com lembrança. Mãe desleixada serei deles, mas os braços pretos que me levantam novos bairros e me pintam com roupas os jardins de domingos hão-de saber mandar recado aos seus do que em mim lhes é desfeito. Madrasta serei dos que me moram nas bermas, mas ai dos tetos das vossas casas quando eles vos pedirem con­tas da mordaça na minha boca. Mãe escassa serei dos que me atam a nova cintura de vermelho vivo, mas ai de vós quando esses me vierem enxugar a cara das lágrimas de alegria que vocês me estancaram de luvas e que hão-de correr de novo à vossa queda debaixo destes pés. Rameira serei de todos os portos, mas esperem pela volta da navegação que de outras paragens aqui trazia recados da esperança, esperem pela cólera desgovernada.

 

Porque eu dormia e vieram cantar-me que tudo era pos­sível, já. Porque eu sonhava e vieram dizer-me a liber­dade, já. E quando acordei da madrugada, dizem — mas pouco, mas nada.

 

Foram longe de mais e muito curto. Clamei por mestres meus e só achei inocentes desavindos e emissários tris­tes. Vocês pagam, que já está pronto o tempo para o que venha do meu corpo, em nome meu, ganha a paixão e a manha. Eu sou a bem amada de quem não tem a perder mais que a alegria duma pátria-ponte, duma cidade aberta, capital improvável.

 

Forarn longe de mais. Nem um mês, nem um ano, nem um século decorrerão sem que vos roa um a um as entranhas e pague com a pior peste a ousadia de cer­car-me à traição, de limitar-me a voz, os acessos, a vida. Pela voz de todos os que aqui feneceram de excessos e ardores, os meus poetas, os meus desmesurados de sem­pre, os meus cidadãos da aventura, os grandes viajantes, eu vos amaldiçoo. Um por um vos hei-de corromper do desastre lento, da aventura adiada. Eu não sou a cidade de origem, eu sou a tomada na ida, a reconquistada dez mil vezes com um farnel e um saco de pano, a donde se vem a mudar vida, a nossa. Vocês pagam. Esta é uma maldição lançada aos reles da ressurreição da minha história. As minhas janelas hão-de abrir-se de novo a escarnecer usurpadores a soldo, a cuspir-vos para esse país exterior de rezas e mezinhas sem luz nem ar onde conservais os vossos trastes e cagais sentenças e ditado­res em nome do bom senso. Eu sou a cabeça da terra dos que mais tentam a morte que tal sorte. Eu duro na aventura desventurada, o menor mal. Vocês pagam.

 

Eu sou feita de tantas raças, eu podia abrir aqui uma porta de sorrisos do mundo e paz travessa, se me hou­vésseis sustentado de cravo sem sangue a rosa de todas as brisas, de todos os mares. Eu podia, eu, arma branca. Estenderei do meu bolbo de rocha preta um coágulo onde atolar-vos e à vossa pouca fé, pequenos europeus, corte final de eunucos. Vocês pagam.

 

Dezembro 1975

 

(in Maria Velho da Costa, Cravo, Moraes Editores)

 

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