Em 1989 o Instituto Português de Cultura de Caracas convidou o José Cardoso Pires para as manifestações do Dia de Portugal. Como era habitual com outros convidados, acompanhei-o em todos os actos em que ele participava. Foi excelente para nós a sua estadia na capital da Venezuela. Mais agradável ainda porque ele se fez acompanhar da Edite, sua mulher, a quem ele carinhosamente chamava «esquilo».
Disse antes «excelente, para nós», porque para ele não foi tanto assim. Creio que não se deu bem a falar para o público, talvez para aquele público, ou porque ele gostava muito mais de falar em grupos pequenos e… bem acompanhado… Para o Cardoso Pires e para a Edite também não foi muito agradável porque num dos momentos, livres de actos, em que passeávamos pela cidade, acompanhados também pela minha mulher, assaltaram a Edite roubando-lhe um fio (supostamente de ouro para o assaltante) acabado de comprar.
Já nessa altura, e não só agora, era habitual os assaltos.
Não foi o valor do roubo que apoquentou, mas a situação em si, e a forte marca deixada no pescoço da Edite pela força do puxão.
O não total agrado do Cardoso Pires pela sua passagem por Caracas está patente num autógrafo que ele fez num livro seu.
Foi nessa sua estadia em Caracas que conheci pessoalmente o José Cardoso Pires. Ficámos amigos. Depois encontrámo-nos várias vezes. Mas já há muito que o conhecia pelos seus livros.
Talvez depois de ter lido O DELFIM, que é geralmente considerado a sua obra-prima, ou O RENDER DOS HERÓIS, ou JOGOS DE AZAR, ou BALADA DA PRAIA DOS CÂES. Estes e mais alguns.
Usando uma linguagem depurada, e de um enorme rigor, José Cardoso Pires era um MESTRE, e já unanimemente considerado um dos maiores escritores portugueses do século xx. Depois, ALEXANDRA ALPHA e A REPÙBLICA DOS CORVOS que tinham saído há pouco. Depois…José Cardoso Pires sofre um acidente vascular-cerebral grave, que lhe causou a perda da memória. Deixa de saber quem era. O centro da fala e da escrita tinha sido também profundamente afectado. Mas algum tempo depois recupera para voltar a escrever DE PROFUNDIS, VALSA LENTA. Um livro que relata o seu acidente vascular cerebral e que é apresentado pelo Cardoso Pires como uma «viagem à desmemória», contando-nos esse momento único passado num túnel branco, entre a memória perdida e a memória recuperada, sendo a única narrativa da sua obra que se pode considerar autobiográfica. Desde OS CAMINHEIROS E OUTROS CONTOS de 1949 (o seu primeiro livro, que foi retirado do mercado pela Censura) até 1997, Cardoso Pires publicou dezoito livros, muitos deles traduzidos em várias línguas e que ficaram arquivadas junto ao melhor da literatura universal. Ganhou vários prémios literários entre eles o Prémio União Latina, Roma, 1991 e o Prémio Pessoa em 1997.
Algumas das suas obras foram adaptadas ao cinema como, BALADA DA PRAIA DOS CÃES realizado por José Fonseca e Costa e O DELFIM, realizado por Fernando Lopes. O RENDER DOS HERÓIS e outras obras suas foram levadas à cena. José Cardoso Pires é um autor português que, para quem teve a fortuna de o ler, e para quem ainda o irá ler, será para sempre um verdadeiro MESTRE.
Coloco aqui um pequeno texto (como um delicioso aperitivo) para relembrar e reler O DELFIM.
(…) Um lavrador de arrozais, João B. de L., ganadeiro e presidente de concursos hípicos, jura a pés juntos que jamais aceitou um recibo ao pessoal da casa, porque, com sessenta e oito anos feitos, ainda acredita na palavra alheia. Na noite de Natal, reúne a família e os criados à mesa, e, esteja onde estiver, logo que nasce um filho a um trabalhador da herdade, nunca se esquece de lhe mandar o dote; um cordão de ouro, se for rapariga, duas acções da Companhia Agrícola J. B. de L, Herdeiros, se for rapaz. «Faço o socialismo à minha maneira», costuma ele dizer. Há ainda o caso de um outro – esse muito antigo – que semeava bastardos entre a cria¬dagem e que a cada amante oferecia um lenço vermelho. Tem barbas, a história. Ouvia-a ao Padre Novo, que, por sua vez, a tinha ouvido a alguém dos seus tempos de liceu. Numa das versões, o homem morria crivado de tiros de zagalote; noutra, o fim era a loucura: acabava, velho e podre, a sonhar com procissões de lenços vermelhos. Prefiro a segunda.


