Da acusação que ASAE faz ao Pingo Doce de ter vendido produtos abaixo do preço de custo à ameaça de tornado, da entrada da Galp no mercado da venda de electricidade às eleições francesas, não faltam motivos para abordar neste Diário de bordo – nunca faltam. Porém, não falaremos hoje das coisas que se estão a passar – não temos de acompanhar a actualidade. Há, por essa blogosfera, muitos blogues informando, dando as últimas notícias.
Não deixará de haver informação sobre o dumping e sobre o resto. Hoje vamos falar de eufemismos, palavra de origem grega que, aparece registada em 1873 no dicionário de Domingos Vieira como sendo o « emprego de palavra favorável em vez de outra de mau agoiro».
Eduardo Galeano, o escritor e jornalista uruguaio do qual tantas vezes transcrevemos entrevistas ou artigos (como ontem e hoje, por exemplo) tem um livro a que deu o título – Patas arriba: la escuela del mundo al revés (1998) onde, descodifica alguns dos eufemismos mais utilizados. Por exemplo, é de mau gosto dizer “capitalismo” – quem não queira ser conotado com a esquerda, a expressão a usar deve ser “economia de mercado”; ao “imperialismo” deve chamar-se “globalização”; aos pobres deve chamar-se “carenciados”; a expulsão das crianças pobres do sistema educativo, deve designar-se por “insucesso escolar”. Em suma, um extenso dicionário do politicamente correcto. E conta mesmo o episódio ocorrido em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefactos que explodem”. Havemos de aqui publicar um artigo com mais equivalências que o livro de Galeano nos proporciona.
Detestamos eufemismos. Neste blogue não se chama lapso à mentira, nem social-democracia à estrutura oligárquica que, com conivências diversas, se robusteceu à sombra da democracia. O “politicamente correcto” não nos importa nem um bocadinho. Chamamos roubo ao enriquecimento ilícito, traição ao pragmatismo, oportunismo ao espírito de iniciativa, mentira aos lapsos. Mentira à mentira.
Porque, num grupo tão alargado como o nosso, existindo necessariamente diversas sensibilidades políticas, cada palavra tem de ter um significado preciso. Dentro da Argos cabem todos os ideais que se identifiquem com os valores da Liberdade, da Solidariedade e da Justiça – os eufemismos não entram. Se não pensamos todos da mesma maneira – não seria possível nem desejável – falemos todos a mesma língua – sem eufemismos.


Muito bem, plenamente de acordo.