O acontecimento que pela minha parte aguardava, para compensar as frustrações da política doméstica, consumou-se. A derrota de Sarkozy em França e, se não a liquidação, pelo menos o rombo na dupla merkozy que tem mantido a UE e, pela mão de Cavaco Silva, Passos Coelho e C.ª, afinal o pleno a que aspirou Sá Carneiro, tem também mantido Portugal, em sequestro. Eu friso que é a derrota de Sarkozy e não tanto a vitória de Hollande que me vem atenuar os males. Porque, infelizmente, a experiência ensina-me a não esperar muito das esquerdas do chamado “arco do poder” possível nesta União Europeia que é, geneticamente, um projecto de direita vinculado aos mitos liberais do “deus mercado”. A passagem dessas esquerdas pelo poder numa união que até podia ser uma proposta interessante, onde até já dispuseram de maiorias confortáveis que lhes deram oportunidade para deixarem uma marca de mudança, encarregou-se de me vacinar contra ilusões.
Mesmo assim há diferenças entre a política de direita envergonhada e conformada dos herdeiros de uma social-democracia com raízes obreiristas e a política de direita arrogante e vingativa dos que se julgam detentores do poder por direito natural e muitos dos quais são mesmo herdeiros de compromissos passados pouco recomendáveis. Não confundo, mas por isso também sou mais severo, porque me sinto mais traído, quando é a esquerda a executora cúmplice da política da direita. A ver vamos… como diz o ceguinho.
A derrota de Sarkozy em França tem o mérito de constituir um sério aviso, porque o voto de condenação maioritário de um país do núcleo duro da UE, apeando um dos pilares desta política de asfixia dos países mais frágeis da periferia, pode ressoar como um tiro de canhão no navio almirante. E confesso que me incomoda pouco que essa maioria conte com alguns votos que na primeira volta concorreram para a meia-vitória à senhora Le Pen. Afinal ter-se-á tratado de uma recuperação, porque segundo os analistas, muitos desses votos já eram originários da esquerda.
Prevejo – ou será que estou a confundir previsões com os meus desejos? – que a queda de Sarkozy terá ondas de choque para lá das fronteiras francesas. Mota Amaral, cuja área política não é da minha preferência, mas que respeito porque tenho na conta de um estadista que nessa área mantém uma voz digna, honesta, lúcida, para quem a política tem conteúdo ético e por isso continua a pensar que PSD quer dizer Partido Social Democrata, subscreveu no último sábado um artigo no semanário Expresso a que deu o título “Sinais de esperança”. Só que os sinais que despertam a sua esperança não são – nem sequer os refere – domésticos, não têm nada a ver com os erráticos anúncios de Passos Coelho, com os contraditórios lapsos de Vítor Gaspar, ou com as infundamentadas previsões (?) de Cavaco Silva. Mota Amaral é demolidor na condenação da «[…] aplicação das doutrinas do neoliberalismo económico (que) vai deixando atrás de si, por toda a Europa, um rasto de destruição e ruína […]» Os ténues sinais de esperança encontra-os Mota Amaral no exterior, nomeadamente na sua previsão da evolução alemã. Creio que agora lhes poderá acrescentar a derrota de Sarkozy. E os ensinamentos a retirar do complexo mosaico saído das eleições na Grécia, reveladoras do desespero em que a política da UE lançou o povo grego.
A minha reacção inscreve-se, algo moderadamente, na linha das esperanças de Mota Amaral. Embora com o sabor amargo de correr o risco de alguma identificação com a marca do sebastianismo lusitano, que aspira sempre a um “salvador da pátria” nem que venha da estranja. Desse atávico fatalismo me demarco ostensivamente. Desejo que saibamos aproveitar os ventos favoráveis que soprem de fora, mas também desejo sinceramente que encontremos as soluções pelas nossas próprias mãos. É mais um aspecto em que sou um indefectível revivalista do 25 de Abril.


Pezarat Correia, como encara o futuro de Europa, dentro do cenário do predomínio alemão, não só económico, como também político? Tenderá o nosso continente para uma fragmentação, em dois grupos, um chefiado pela Alemanha, outro pela Inglaterra, com o apoio dos EUA? Já agora, outra questão. Não terá sido para afastar um potencial rival que a Alemanha se opôs à entrada da Turquia na UE?