Batalhão de Caçadores 2877
ANGOLA
1969-1971
Na manhã de 12 Julho de 1969 as subunidades do BCaç 2877 deslocaram-se para o Cais da Rocha de Conde de Óbidos onde se efectuou a concentração do Batalhão. Após formatura, juntamente com o BCaç 2878, à qual foi passada revista pelo Exmº Chefe do Estado-Maior do Exército que proferiu uma alocução de exortação às forças em parada, procedeu-se ao embarque no paquete “Vera Cruz” com destino à Região Militar de Angola.
OS PRIMEIROS MOMENTOS DA VIAGEM
Após o desfile militar e o regresso ao navio, onde já tínhamos estado para saber do local de alojamento e colocar as bagagens, a amurada do “Vera Cruz”, nos seus diversos níveis, ficou repleta.
Foram as derradeiras despedidas, com o barco a largar os cabos e a fazer soar a sua potente ronca, sinal que zarpava definitivamente a caminho do desconhecido.
Aqui vamos nós a caminho de Luanda.
Nestes primeiros momentos da viagem, a novidade e a curiosidade pela viagem por mar, num paquete de grandes dimensões, sobrepunha-se, naturalmente, ao receio da guerra.
Uma passagem pelo Funchal para embarcar mais militares que aí se aprontaram para a ida para o teatro de operações da guerra de Angola, dava também, mais alguma folga aos principais temas dos nossos pensamentos – Angola, Guerra, etc.
Para alguns de nós, a possibilidade de desembarcar no Funchal, para dar uma olhadela aos principais pontos de interesse da cidade e arredores mais próximos, a compra dos típicos chapéus de palha e, umas garrafas do afamado vinho Madeira, serviram para amenizar a tensão própria da viagem.
Meia dúzia de horas, não foram muitas, mas o suficiente para conhecer a baixa da cidade do Funchal e alguns locais de interesse na periferia mais chegada do porto onde se encontrava acostado o “Vera Cruz”.
Regresso a bordo e a viagem a prosseguir, agora sem qualquer outra paragem até Luanda.
Para os Sargentos e Furriéis, assim como para os Oficiais, havia uns tanques a que pomposamente chamavam piscina, onde se podia passar um pouco do nosso tempo, amenizando um pouco a experiência da viagem.
E assim íamos a navegar, muitas horas seguidas, ou quase sempre, com o “Vera Cruz” adornado para bombordo aproveitando a ajuda dos ventos alísios que se faziam sentir no oceano Atlântico Sul. Alguns exercícios de treino para situações de emergência a bordo, também foram efectuados.
De resto, o tempo sempre se ia passando.
Porque esta viagem se estava a tornar monótona, sempre alguns foram experimentando umas jogadas de cartas: Sueca, King e Lerpa.
Estes eram os jogos mais difundidos.
Acontece que a tripulação do “Vera Cruz”, habituada que estava ao transporte de “maçaricos” de e para Lisboa, sempre foi aproveitando para fazer as suas negociatas de contrabando.
Os relógios e outros apetrechos “made in Japan” eram a mercadoria que frequentemente era comercializada.
Recordo os relógios marca Seiko e Orient, muito vendidos durante toda a viagem.
E Assim ia decorrendo a viagem, felizmente sem quaisquer contratempos meteorológicos.
O tempo foi-se mantendo sempre de feição, sem nuvens, sem “mareta”, tendo ocasionado uma viagem sem balanços e sem os habituais “enjoos” de quem tem “medo” do mar.
De quando em vez, os peixes voadores iam acompanhando o “Vera Cruz” na sua viagem.
Estes peixes, aproveitando a aerodinâmica das suas barbatanas dorsais, faziam longos voos por cima da água, como se pássaros fossem, ocasionando o espanto da grande maioria de nós.

