O GARDEN- PARTY, de KATHERINE MANSFIELD – VII. Tradução de João Machado.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(continuação)

 

― Tac, tac, tac, ― a cozinheira parecia cacarejar como uma galinha agitada. A Sadie tinha a mão a agarrar a cara como se estivesse com dor de dentes. O rosto de Hans contorcia-se com o esforço para compreender. Só o homem da Godber parecia estar contente; era ele quem contava a história.

 

― Que se passa? Que aconteceu?

 

― Houve um acidente terrível. ― disse a cozinheira. ―Morreu um homem.

 

― Morreu um homem! Onde? Como? Quando?

 

Mas o homem da Godber não ia deixar que alguém contasse a história por ele.

 

― Estão a ver aquelas casinhas ali em baixo, meninas? ― Se as conheciam? Claro que as conheciam. ― Pois, vivia ali um rapaz chamado Scott, que trabalhava como carroceiro. O cavalo dele, na curva da rua Hawke, assustou-se com um tractor,  e ele foi projectado e bateu no chão com a parte de trás da cabeça. Morreu,

 

― Morreu! Laura olhava para o homem da Godber.

 

― Estava morto quando o levantaram, ―disse o homem da Godber com ar prazenteiro. ― Iam a levar o corpo para casa quando eu vinha para aqui. ― E disse para a cozinheira, ― Deixa mulher e cinco filhos.

 

― Anda cá, Jose. ― Laura puxou a manga da irmã e levou-a através da cozinha até passarem a porta forrada a baeta verde. Parou e encostou-se ali. ― Jose! ― disse, horrorizada, ― como é que vamos suspender tudo?

 

― Suspender tudo, Laura! ― exclamou Jose espantada. ― Que queres dizer?

 

― Suspender o garden-party, claro. ― Porque é que a Jose fingia não perceber?

 

 

Mas Jose estava cada vez mais espantada. ―Suspender o garden-party? Minha querida Laura, não sejas absurda. Claro que não podemos fazer nada disso. Ninguém espera que o façamos. Não sejas tão extravagante.

 

― Mas nós não podemos de modo nenhum dar um garden-party com um homem morto mesmo do lado de fora do nosso portão da frente.

 

Era realmente extravagante, pois as casinhas ficavam numa travessa só delas, mesmo ao fundo de uma ladeira que conduzia à casa. Havia uma estrada larga de permeio. Era verdade que não deveriam estar ali tão perto. Constituíam uma ofensa para a vista, e não tinham qualquer direito de estar ali ao pé. Eram moradias muito humildes pintadas a castanho chocolate. Nas nesgas ajardinadas só se viam caules de couve, galinhas doentes e latas de tomate. Até o fumo que saía das chaminés tinha um ar de pobreza. Aos bocadinhos e a retalhos, tão diferente das grandes plumas prateadas que se desenrolavam da chaminé dos Sheridan. Viviam na travessa lavadeiras, varredores e um sapateiro, além de um homem cuja casa tinha a frente toda coberta com gaiolas de aves minúsculas. As crianças enxameavam. Quando os Sheridan ainda eram pequenos estavam proibidos de pôr ali os pés por causa da linguagem grosseira e das doenças que poderiam apanhar. Mas quando cresceram, a Laura e o Laurie  passeavam às vezes por ali. Era repugnante e sórdido. Voltavam de lá sobressaltados. Mas era preciso ir a todo o lado; devia ver-se tudo. Por isso lá iam eles.

 

 

(continua)

 

 

Leave a Reply