Diário de bordo de 14 de Maio de 2012

 

Na certidão de nascimento dizia que Ernesto Guevara de La Serna nasceu em 14 de Junho de 1928, em Rosario, Argentina, mas na verdade foi em 14 de Maio que o Che nasceu. A mãe engravidara antes do casamento e não era sensato que uma aristocrata desafiasse as regras da sociedade. Hoje Ernesto Che Guevara faria 84 anos – isto se fosse um homem mais sensato. Mas Che Guevara preferiu ser coerente, não trair as suas ideias, mandar a sensatez às urtigas. Médico, asmático, com uma boa posição no executivo cubano, abandonou tudo e  foi combater a tirania. Valle Grande, na Bolívia, foi onde em Outubro de 1967 o executaram. Culpado do grave crime de insensatez.

 

Os políticos não são insensatos por natureza – nós temos, neste momento, um primeiro-ministro sensato e um líder da oposição, ainda mais sensato, se possível. Combater a tirania é insensatez que não irão cometer. Passos Coelho e o seu executivo vão friamente, dia a dia, dizendo-nos que novas medidas nos vão ser aplicadas – não querendo mentir como Sócrates, vão alterando a verdade diariamente, pois a verdade de hoje é má, mas por lapso não estava correcta – e a verdade de amanhã, corrigido o lapso, será pior.

 

Os jornalistas falam das gaffes do primeiro-ministro. Mas não se trata de gaffes – ele está mesmo convicto de que a ruína do tecido social e económico pode ser o ponto de partida para a regeneração do modelo por que nos regemos – É a doutrina do choque defendida por Milton Friedman, o prémio Nobel, que ajudou Pinochet a «restaurar» a economia chilena afectada pelas medidas socialistas que Allende introduzira. Amanhã, apresentado por Paulo Ferreira da Cunha, editaremos um vídeo em que Naomi Klein, uma jornalista canadiana, nos expõe com clareza as bases dessa «doutrina». Vítor Mengele Gaspar, a quem não falta sequer o toque de loucura comum ao estereótipo do médico nazi, faz de nós cobaias e põe em prática as teorias do mestre. As experiências correm mal ou bem – para as cobaias correm sempre mal – mas permitem sempre tirar conclusões.

 

E se não fizermos nada ou se nos limitarmos a não votar no PSD, votando no PS (é igual a não fazer nada) merecemos mesmo ser sujeitos à terapia de choque que esta gente estúpida, mas sensata, nos está a aplicar. E vaiar o primeiro-ministro na Feira do Livro, como aconteceu ontem talvez não tenha sido sensato – mas foi profundamente justo.

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