O GARDEN- PARTY, de KATHERINE MANSFIELD – VIII. Tradução de João Machado.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(continuação)

 

 

― E pensa no que vai custar à pobre mulher estar a ouvir a orquestra, ― disse Laura.

 

 

― Oh, Laura! ― Jose estava a começar a ficar seriamente preocupada. ― Se proibires uma orquestra de tocar sempre que alguém tem um desastre, vais ter uma vida muito agitada. Tenho tanta pena do que aconteceu quanto tu. Também sinto muita pena. ― Os olhos dela endureceram. Olhou para a irmã da mesma maneira como quando eram pequenas e andavam à zaragata. ―Não consegues fazer ressuscitar um trabalhador bêbedo com sentimentalismos, ― disse suavemente.

 

― Bêbedo! Quem foi que disse que ele estava bêbedo? ― Laura olhou furiosa para Jose. Disse, tal como costumavam em ocasiões assim, ― Vou já dizer à mãe.

 

― Vai, querida,― provocou Jose.

 

― Mãe, posso entrar no seu quarto? ― Laura fez girar o puxador de vidro da porta.

 

― Claro, filha. O que se passa? Porque estás tão corada? ― E a Senhora Sheridan levantou-se da mesa de vestir. Tinha estado a experimentar um chapéu novo.

 

― Mãe, morreu um homem, ― começou Laura.

 

― Aqui no nosso jardim? ―  interrompeu a mãe.

 

― Não, não!

 

― Que susto me pregaste! ― A Senhora Sheridan suspirou de alívio, tirou o chapéu grande e poisou-o nos joelhos.

 

― Mas oiça, mãe, ―disse Laura. Ofegante, meio engasgada, contou a história terrível. ― Claro que não podemos dar a nossa festa, pois não? ― implorou ela. ― Com a orquestra e toda a gente a virem por aí. Vão ouvir-nos, mãe; são praticamente nossos vizinhos!

 

Para espanto de Laura a mãe reagiu tal qual Jose; era ainda mais difícil de suportar com o ar divertido dela. Recusou levar Laura a sério.

 

― Mas, minha querida filha, sê razoável. Só soubemos disso por acaso. Se alguém tivesse morrido naturalmente – e não consigo perceber como conseguem viver naqueles buraquinhos tão acanhados ― nós teríamos a nossa festa à mesma, não é verdade?

 

Laura teve de responder que sim àquele raciocínio, mas sentia que estava tudo errado. Sentou-se no sofá da mãe e beliscou o folho da almofada.

 

― Mãe, é uma grande falta de sentimentos da nossa parte, não é? ― perguntou.

 

― Querida! ― A Senhora Sheridan levantou-se e veio até ela, com o chapéu na mão. Antes que Laura a pudesse deter, colocou-lho na cabeça. ― Minha filha! ― disse a mãe, ― o chapéu é teu. É como se tivesse sido feito de propósito para ti. É demasiado juvenil para mim. Nunca te tinha visto a parecer tal e qual um quadro. Vê-te ao espelho! ― E passou-lhe um espelho para a mão.

 

― Mas, mãe, ―Laura ia a começar outra vez. Não conseguia ver-se ao espelho; voltou-se.

 

Desta vez a Senhora Sheridan perdeu a paciência, tal como Jose anteriormente.

 

― Estás a  portar-te de uma forma completamente absurda, Laura, ― disse friamente. ― Pessoas como aquelas não esperam sacrifícios da nossa parte. E não é muito simpático estragar a boa disposição dos outros como agora estás a fazer.

 

― Não compreendo, ― disse Laura, e saiu imediatamente do quarto da mãe e foi refugiar-se no seu. Aí, por acaso, a primeira coisa que viu foi uma rapariga encantadora ao espelho, com um chapéu preto ataviado com margaridas douradas, e uma longa fita de veludo preto. Ela nunca tinha pensado que podia ter aquele aspecto. Será que a mãe tem razão? pensou ela. E agora desejava que a mãe tivesse razão. Estarei a ser extravagante? Talvez fosse extravagante. Veio-lhe um vislumbre instantâneo da pobre mulher e das crianças pequenas, e do corpo a ser transportado para casa. Mas tudo lhe aparecia nublado, irreal, como uma fotografia no jornal. Vou pensar nisto quando a festa acabar, decidiu. E de algum modo pareceu-lhe ser o melhor a fazer…

 

(continua)

 

 

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