DIÁRIO DE BORDO, 15 de Maio de 2012

 

É preciso ter bem claro o seguinte: o que se está a passar na Grécia vai ficar para a história. Para a história da Europa, porque vai deixar bem claro (é verdade que haverá sempre quem não quer ver) que a Europa, como conjunto de países em pé de igualdade é inviável. Mais: que é inviável que os países europeus com menos população e menor poder económico e político consigam desenvolver as políticas que mais lhes convêm. Aos que no passado manifestaram estas convicções, independentemente de expressões de patriotismo estreito, o menos que lhes chamaram foi de antieuropeu.


E o que se está a passar na Grécia vai ficar para a história do Mundo. Os efeitos da crise na Europa, a quase inevitável desagregação desta em blocos caso a Grécia seja forçada a sair do euro, o que implicará seguramente a sua saída da União Europeia, a agitação que reinará no país, tudo terá repercussões no resto do Mundo. Os EUA vão poder reforçar a sua influência no Mediterrâneo Oriental, a pretexto da segurança na área. Israel também descobrirá um pretexto para um reforço militar e, provavelmente, para um ataque à Síria ou ao Irão. A corrida aos armamentos acelerar-se-á. A NATO também tentará aumentar o seu papel. A China poderá fazer mais compras, e investir no seu poder militar. Por aí fora.


É evidente que o cenário acima descrito, que é desejado em sectores influentes do mundo financeiro e por muitos elementos dos governos e das oligarquias dominantes, poderia ser evitado. Era preciso para tal que as instituições políticas europeias fizessem marcha atrás nos seus diktats. Este segundo cenário é altamente improvável, tudo o indica. Inclusive por que já foram muito longe em ameaças e mensagens. As declarações de Jean-Claude Juncker à saída da reunião do Eurogrupo de ontem, num sentido apaziguador, de afrouxamento do rigor dos prazos de pagamento impostos à Grécia, e de respeito pelas votações feitas, esbarrarão sempre na intolerância alemã, e de outros países, com problemas com os bancos alemães.


Na Grécia hoje realiza-se mais uma reunião entre os líderes de vários partidos. O problema, segundo a maioria da comunicação social, é o Syriza. O seu líder, Alexis Tsipras, sorri muito, é lunático, etc.  O grande problema é que todo este foguetório é para esconder do público que a posição do Syriza, quando refere ser indispensável, no mínimo, rever o chamado acordo com a troika, é a única ideia sensata no meio de todo o concerto de asneiras e de mentiras que são propalados nos jornais, nas televisões pelos informadores e comentadores oficiais. E que também é do mais elementar senso comum fazer uma auditoria rigorosa à dívida pública grega, nomeadamente para ser do conhecimento do público em geral a maneira como ela se formou. Até para impedir que, por cima desta dívida, apareça outra ainda maior. E claro acabar com a especulação financeira, as compras de armamento (a Grécia comprou mais submarinos que Portugal, também à Ferrostaal, nos últimos anos. Para que guerra? Estariam em melhor estado?), os ordenados monstruosos a administradores, etc., que entalaram a situação. Na Grécia haverá muitas outras situações a rever. Por exemplo, 15 a 20% da marinha mercante mundial é controlada por armadores gregos, que pagam pouquíssimos impostos no país, e que inclusive têm aproveitado do abaixamento dos salários e da desvalorização do imobiliário e mercadorias. Não poderiam dar um contributo maior? De que deviam, pouca gente duvida.


É este o problema. Quando se ouve falar que os sacrifícios estão a ser divididos por todos por igual, se repara nos armadores gregos, de que a quebra de vendas de carros de luxo em Portugal é inferior à de das marcas mais modestas, ou nas excepções aos cortes salariais e outros, vê-se que o problema é antigo: é o tal 1 % que não quer ser apanhado pelos 99 %. Pôr os cidadãos a pagar uma dívida pública que o 1% contraiu é o golpe do século. Se os gregos elegerem quem não a quer pagar, têm que eleger outro ou outros, é do que nos querem convencer. A propósito, leiam o que escreveu Rui Tavares ontem na sua coluna do Público, e Wolfgang Münchau, no domingo, no Finantial Times (ver Eurointelligence, também ontem, aqui em A Viagem dos Argonautas).

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