O ARREBATADOR DE ILUSÕES – 3- por Raúl Iturra

3. O arrebatador de ilusões.
O Miguel vai ao café sem a namorada. Andreia fica em casa. Às tantas, e ás horas convenientes para uma dama, aparece meia hora para falar com as suas amigas e observar os outros. À noite, o Miguel anda com os seus amigos a comer e a beber cerveja. Porque é o fim da semana. Durante a semana, é o trabalho. O Miguel está a construir o futuro da sua vida. Há horas do fim-de-semana, ou mesmo da tardinha da semana, nas quais o Miguel não é visto. Nem a Andreia. Ficam nos seus passeios livres, os dois sós, pela rua do largo do centro da vila, a dizerem palavras que mais ninguém ouve. Mas que todos se lembram por terem feito o mesmo, no seu dia. O Miguel trabalha duro e junta dinheiro. Durante o dia. Nas horas livres, namora.
Como O Vítor e a Fátima, faz anos, faziam. Não havia ideia de família patriarcal. Havia ideia de família conjugal. Com os dois a trabalharem, com os dois a realizarem o que mais amavam, para si, na vida. Passa o tempo, a Fátima tem uma filha, o Vítor tem uma empresa: a filha deve ser amamentada, a indústria deve ser trabalhada. E não a qualquer preço: ao preço que permita comprar o carro, a nova casa, o telefone móvel, o televisor a cores, a roupa nova, os brinquedos, os eletrodomésticos, as visitas, a poupança para a próxima aquisição. A poupança para o próximo investimento. Trabalhar duro, em sítios diferentes. O Vítor ia ainda com a Fátima ao café até nascer a pequena rapariga, essa Sara mimada e querida que só a Fátima sabe cuidar, porque só a Fátima pode amamentar.
No entanto, há falta de dinheiro e mais uma Fátima, rapariga da sonhada família conjugal, deve permanecer em casa a tecer alcatifas. Como as suas vizinhas. Como as vizinhas todas nos bairros de Lisboa, nas ruas não profissionais da cidade, como na Alfama do Chafariz de Fora. As Saras nascidas na prometida vida conjugal, acabam por fazer da casa um lar patriarcal. E muito embora esse Vítor saiba tratar da rapariga, quando a Fátima decide ir passear, são curtas as horas que ela fica fora de casa.

O Miguel observa. Como observa seus pais: uma Elvira que trabalha para outros, um Luís Filipe que volta do trabalho de pedreiro e corre para o café para falar com os amigos. Lares de corrida, lares de não conversa. Lares que Anabela observa nos dos seus amigos e no seu próprio lar. A emotividade existe, sente Anabela, enquanto andam todos a fazer o trabalho que dá o dinheiro que permite uma vida à medida do milénio que se aproxima. Auto estima mantida à força de definir objetivos entremeados com os objetivos dos outros. Que não dão prazer para procurar companhia. Porque ainda que exista a promessa do lar conjugal, acaba por ser patriarcal, como já era na antiga Roma. Como foi nos tempos góticos e de morgadios: divisão do trabalho que acaba com a mulher sempre em casa e o homem sempre no trabalho. A fazer carreira. Enquanto a mulher faz carreira a criar crianças ou tomar conta do homem. Homem ao qual, com tudo, ama. Porque é condição de estarem juntos aceitar as vidas disjuntivas que a reprodução traz ao lar. Esse que se prometia ser diverso, e acaba por ser o mesmo. Os costumes sociais assim o mandam e só os intelectuais que têm o tempo, porque têm o dinheiro, podem pensar que é diferente. Os que não têm esses tempos, ainda que o desejem, não podem cortar a cadeia de repetições que parecia diferente quando havia tempo para namorar e passear.
O arrebatador de ilusões é a vida quotidiana. Que precisa de acumular. Ou, pelo menos, de poupar. Do que tenho observado, como o senhor leitor deve saber também, há heterogéneas formas de trabalho entre pessoas dum mesmo tempo: começa pela ilusão, passa pela vida conjugal, há um período forte de vida patriarcal, para tornar a ser conjugal quando os filhos estão crescidos e os pais, ainda novos, ficam outra vez sós e em lua crescente que torna a ser como o primeiro dia. Quando, como o Miguel de hoje, começara a namorar e a prometer que a vida seria igual para os dois. Mas, ninguém contava com o arrebatador de ilusões: a aprendizagem no lar original, a nação em procura de euros, o país em remodelação a passar por cima dos costumes que mantêm as formas que cada geração promete romper por ter visto como era na geração anterior. Rompimento que não consegue, excepto, pensa-se, se foge do sítio ao qual pertence e forma uma nova vida. Que, sem dar por isso, acaba por ser semelhante a vida da qual fugiu.
Suspense da vida, Cabeçudos a serem partidos pelos Gigantes. Suspense que forma o contexto dentro do qual as nossas crianças crescem. Contexto reiterado apesar das novidades que traz a liberdade da mulher. Que acaba por existir para essas poucas que não sacrificam o corpo para contribuir para a reprodução total: de seres humanos, de comidas, de dinheiro, de levar o chá à cama a essas que mais nada têm para fazer. Transferência de ilusões que acabam por tornar a nós e, ou aceitamos a vida como ela é feita na memória social, ou desfazemos a vida desiludidos de ter transferido o que parecia possível, mas o maior arrebatador, a economia do povo, não permite fazer.
4. Epílogo.
Não é apenas dos grupos por mim estudados em vários Continentes, que tenho observado estes factos. É até sob o teto de grupos sociais com poder, que sou capaz de apreciar a falta de outro diálogo que não seja o do trabalho, o de fazer dinheiro. Ou as recriminações pela falta de cumprir com o ideal traçado quando se começara a querer. A amar. A formar um ninho que fica feito de penas, essas da tristeza que marcam o comportamento da criança que a Antropologia da Educação estuda. Essa a minha experiência entre seres de diversas origens, mutáveis no tempo, manipulada a estrutura social conforme se sente e se quer pensar, base para uma definição da ciência. De observador participante que sabe que para entender, é preciso sentir; que para sentir, é preciso ser um Outro; e que para ser um Outro, é preciso viver com eles através dos anos e fazer, com amor, o que eles fazem. Pelo respeito daquilo que eles fazem nos inspira e nos faz retirar, às vezes com uma certa dor, as nossas próprias ideias, que são para serem vividas entre os nossos e não entre esses Outros. Que nos ensinam a base da nossa ciência e, ainda mais, a ciência das suas vidas. Eis a Sociologia Comparada que nós, Antropólogos, professamos. Com a que estudamos o processo educativo das crianças. O contexto dentro do qual eles vivem. Sem saber qual, a pedagogia não existe.
Queira o leitor debater este texto. Estou certo de que também abandona a sua família, à laia patriarcal, para comprar os três carros da casa, as duas casas para a mesma família, que não calcula no tempo o dano que faz á criançada, a sua ausência quotidiana. Nem repara no dano que faz à mulher que ama por apagar os seus objetivos e em que transforma sua autoestima. Nem repara no dano que faz à Ciência, o intelectual que estuda por amostra e inquérito, o que só se pode aprender na vida dos que a querem ensinar. Arrebatador de ilusões os gigantes e cabeçudos que se acompanham à moda do suspense de Hitchcock.

 

A seguir –

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