Globalização e Desindustrialização – 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  – XIII

 

(continuação)

 

 

Implicações em termos de políticas

 

Uma possível resposta a essas tendências seria considerar  que os resultados de mercado, especialmente os relativos à eficiência, fazem sempre com que todos fiquem melhor a  longo prazo. Isto parece claramente incorrecto e nem  é confirmado nem  pela teoria nem pela experiência. É verdade, como se verifica nos Estados Unidos, que muitos bens e serviços são mais baratos do que seriam se a economia estivesse abrigada da economia global, e em que os benefícios de preços mais baixos estão generalizados. Mas não é obrigatório que essas economias de custo estejam ou venham necessariamente a  compensar as oportunidades de emprego entretanto diminuídas e  seria presunçoso ao extremo que os responsáveis políticos digam aos eleitores o que é devem ser os seus valores e preferências. As pessoas podem talvez estar interessadas  em deixar  de terem produtos mais baratos para passarem a ter  garantias de que uma ampla gama de opções de emprego produtivos e gratificantes estariam disponíveis, agora e no futuro, para si e para os seus filhos e netos, mesmo se o custo das mercadorias que consomem pudesse subir.

 

Uma segunda posição reconhece os efeitos distributivos. Se quisermos usar o sistema de mercado no contexto de uma economia aberta à escala mundial, as implicações da distribuição  são inevitáveis, mas temos que as aceitar.  Porquê? Porque, de acordo com o argumento [dos defensores da actual globalização], a alternativa seria então  não ter um sistema de mercado eficiente a operar numa economia global relativamente aberta, o que seria muito pior. Contudo, para muitos seria  desejável ser de modo  diferente, até porque  é impossível compensar plenamente aqueles cujas oportunidades de emprego ou de rendimentos sejam prejudicados. Esta atitude é mais realista do que a primeira. Provavelmente existem escolhas reais entre níveis de rendimentos agregados e a eficiência por um lado  e a equidade distributiva  e  as oportunidades de emprego por outro.


Mas, para completar a avaliação, é necessário explorar as políticas que podem melhorar as situações de compromisso referidas agora, os  trade-off.  Como questão  principal,  poder-se-ia  restringir o acesso ao mercado interno pelos  produtores e fornecedores  estrangeiros. Isso geralmente cai sob o título de proteccionismo, da possibilidade de riscos de retaliação e que pode estabelecer  um comportamento em cascata  quase certo que pode  causar mais mal do que bem. Além disso, aumenta os preços de muitos produtos para toda a população. Não é uma boa ideia quando efectuada agressivamente numa frente ampla. O G20 tem razão ao chamar repetidas vezes  a atenção para o perigo do alargamento do proteccionismo. E uma abordagem preferível é a de aceitar a globalização mas a procurar ao mesmo tempo as políticas internas que reduzirão o impacto distributivo internamente.

 

É certo que não há nenhuma correcção política simples que o possa fazer. Enfrentar a desigualdade é um desafio complexo; quase que certamente será necessária uma abordagem multidireccional. Mas o desafio não deve ser evitado, porque a disponibilidade de emprego de qualidade e as desigualdades crescentes na distribuição do rendimento são problemas politica e socialmente de grande relevo, e o conceito de oportunidade de emprego é uma peça central do contrato social.


A ausência as oportunidades de emprego gratificantes em termos de remunerações  nas faixas de baixo e médio rendimento rompe  uma parte importante do contrato social na América, em que se defende  que cada um é responsável de si no seu próprio país, mas que se cada um trabalhar duro as oportunidades vão estar presentes. A segunda parte desse contrato está agora posta em causa. A questão a ser seguida e do  que praticamente se deve falar é saber o  que pode ser feito para mudar a evolução da estrutura global em nosso favor sem causar danos excessivos para o sistema como um todo ou para as outras pessoas.

 

 

Essa análise indica que parte da resposta deve vir de necessidade de alterar as tendências dos sectores de bens e serviços transaccionáveis. As forças de mercado que operam na economia global são poderosas. Não é razoável definir o desafio, como sendo a necessidade de uma resistência ou então ignorando-o.  Mas o objectivo deve ser a mudança de  incentivos à margem de modo a poder  melhorar os efeitos distributivos a favor dos Estados Unidos. O que se segue não pretende ser uma discussão completa das opções políticas, mas sim sugestões para um ponto de partida.


Pelo lado da oferta do mercado de trabalho, o Estado e os indivíduos podem investir ou co-investir em capital físico (infra-estruturas), instituições, capital humano, no conhecimento e nas tecnologias, nos suportes técnicos da economia. Esses investimentos geralmente têm efeitos similares nos países avançados e nos países em vias de desenvolvimento, o de elevar a taxa de rentabilidade do investimento privado, fazendo com que  último se expanda  em escala e em extensão arrastando nisso o emprego.


Que tipo de investimentos faria aqui sentido? Manter a liderança americana no  ensino superior é um ponto de partida. Os trabalhos de alto valor acrescentado , especialmente os que são pagos a nível superior no sector de bens e serviços transaccionáveis, geralmente estão preenchidos com  pessoas altamente formadas com graus de licenciatura de diversas faculdades  ou mesmo graus acima. Fazer com que os Estados Unidos não fiquem para trás a este respeito faz sentido como parte de um portfólio de políticas. Claro, não  se pode garantir  que o número de postos de trabalho seja passível de aumentos significativos, dado o âmbito do sector transaccionável, mas pode-se  promover o crescimento do emprego e, com mais graus científicos e de engenharia, o âmbito de aplicação poderia alargar-se  também. Há  já alguns dados a mostrarem que a liderança  dos Estados Unidos  na educação tem estado a ser  corroída nalgumas  áreas.

 

Para além disto,  Washington deverá continuar a apoiar a investigação fundamental. O investimento do sector público em conhecimento e tecnologia é grande nos Estados Unidos e tem sido uma base importante para o aparecimento das novas tecnologias, para o crescimento económico e para o aumento da produtividade. Mas, em algumas áreas, tendo em conta os constrangimentos do orçamento, este investimento está em declínio. O capital humano é um subproduto do investimento na investigação, e muitos pensam mesmo que o subproduto é tão importante como a produção de conhecimento directo.

 

É provavelmente uma boa ideia  explicitar os objectivos  do investimento público em tecnologias com potencial para alargar o âmbito do sector transaccionável e do emprego. O co-investmento em conjunto  com o sector privado, que possui conhecimentos relevantes sobre onde essas mesmas oportunidades se podem encontrar , faria  sentido ser feito.  Este investimento público teria o efeito de deslocar os  incentivos privados de modo a que estes se alinhassem melhor  com os objectivos sociais. As empresas multinacionais do sector de bens transaccionáveis  têm acesso ao fornecimento de mão- de- obra abundante e de custo relativamente baixo na economia global. Neste tipo de ambiente, a recompensa para investir em tecnologias intensivas em capital que aumente  a produtividade do trabalho nos países de alta rendimento  do sector de bens e serviços  transaccionáveis  é mínima. No entanto, esse incentivo poderia  ser deslocado um pouco para se alinhar em conjunto com o  co-investmento público que reduziria o custo do investimento do sector privado. A mudança de incentivos poderia levar ao  aumento da empregabilidade dos cidadãos no mercado interno e  no sector dos bens e serviços negociáveis internacionalmente. .

 

As infra-estruturas  também devem ser parte do portfólio. Directamente geram a criação de novos empregos e melhoram  a competitividade e a eficiência numa vasta gama de sectores. Tendo em conta a difícil situação orçamental actual, será difícil encontrar o espaço orçamental  para expandir o investimento nessas áreas. Explorar  as parcerias  público-privadas para criar ou actualizar as infra-estruturas, portanto, pode ser uma via de saída  bastante útil. Há um corpo crescente de experiências com a abordagem de parcerias público-privada para infra-estrutura nos países em desenvolvimento, que muitas vezes querem  acelerar os investimentos em infra-estruturas para apoiar o crescimento  mas em que têm limitadas e restritas capacidades  orçamentais.

 

Finalmente, a reforma fiscal ajudaria se, para além de eliminação dos desperdícios, da  complexidade e dos incentivos perversos, pudesse claramente favorecer os investimentos numa ampla gama de activos produtivos de todos os tipos, incluindo as pequenas e grandes infra-estruturas, como também  a formação do   capital humano.

 

A evolução da estrutura económica difere entre os países avançados. As forças são semelhantes, mas as respostas de mercado assim como as  políticas têm variado. Nós admitimos e previmos vir a fazer  um estudo mais abrangente sobre a evolução estrutural numa ampla gama de grandes economias em colaboração com uma grande instituição de direito privado com capacidade de recolha de dados e de pesquisa global. Por agora, é um projecto que   está para  além dos nossos recursos.

 

Sabemos, no entanto, que a estrutura da economia alemã no  que se refere ao conjunto dos bens e serviços negociáveis  internacionalmente  é realmente bem diferente da  dos Estados Unidos, como o é assim  também a situação da sua conta corrente. Isso pode ser em parte o resultado de escolhas políticas  reproduzíveis enquanto tais; as reformas alemãs  feitas durante a última década  foram projectadas  tendo como objectivos bem presentes o emprego e a competitividade. Um elemento é  aqui bem particularmente  digno de nota: os aumentos salariais têm sido baixos durante a maior parte dessa mesma década. Isto  parece ter tido um efeito significativo sobre a competitividade  no sector de bens exportáveis e numa grande variedade das suas indústrias, tais como maquinaria industrial. Sujeito a uma investigação mais detalhada, parece poder considerar-se que a preservação do emprego foi parte de um amplo acordo entre empresas, os sindicatos  e o governo e em que sacrifícios foram  feitos para atingir este objectivo em termos de crescimento do rendimento. Curiosamente, a distribuição do  rendimento  na Alemanha é bem mais equitativa  e não parece ter-se  modificado negativamente, como se tem verificado na   América.

 

Não será fácil recuperar as actividades da indústria transformadora que se deslocalizaram, que se perderam. A competitividade na indústria transformadora é apoiada por trabalho especializado e pelas instituições de formação e de ensino tecnológico. Uma vez que estas instituições também desapareceram é difícil voltar a criá-las .24 Uma implicação resultante desta realidade é que os quadros mentais em que se deve pensar e se devem inserir as políticas a longo prazo devem incluir uma séria avaliação sobre a evolução da competitividade e sobre o potencial de emprego em todos os sectores e em todos os níveis do espectro educacional e do capital humano e também um objectivo na direcção ou da movimentação dos resultados do mercado para alcançar os objectivos sociais. A evolução estrutural das questões de economia é importante e estas podem ser influenciadas de formas relativamente eficazes.


Esta recomendação não é tão radical como possa parecer. Apesar de muitos comentarem o contrário, a existência linha de nítida separação   entre intervir para influenciar os resultados de mercado a prazo e uma abordagem de não intervenção é uma ilusão. A maioria dos países (avançados e em desenvolvimento) adoptam  políticas e investem  recursos públicos em activos que aumentam o capital humano, a sua base tecnológica da economia e a sua competitividade. Que irá  e deverá  continuar. É uma forma benigna de concorrência entre os  Estados-nação, o que aumenta a produtividade em todos os lugares, desde que os mercados para bens e serviços intermédios e finais permaneçam  abertos.


A alternativa seria então  utilizar formas de intervenção mais cegas e destrutivas, geralmente a serem carimbadas com o rótulo  de proteccionismo. E o incentivo de recorrer a esse tipo de “solução” aumenta à medida que os efeitos distributivos  sobre as oportunidades de emprego e de rendimentos se tornam  cada vez mais adversos.

 

(continua)

 

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