Hoje, não vou longe, fico mesmo por aqui. Infelizmente, a verdade é que cada vez vou menos, no sentido de ir.
Ainda que todos os dias ande de lá para cá, de cá para lá, e o conta quilómetros do carro me faça arrepiar perante a ameaça de mais uma manutenção e pneus novos.
Por isso, hoje não vou longe, nem gasto pneus. Vou a pé, ao fundo da minha rua. Aqui onde moro, tudo se resume a uma rua: uma avenida, por sinal, com apêndices laterais, muitos chamados becos, e que não criam aglomerado mais do que duzentos ou trezentos metros para um lado, ou para o outro, da avenida.
Eu moro um desses becos, arejado, mas não lhe chamo beco, chamo-lhe rua. É arejado, e tem uma praceta criada pela configuração do edifício. O edifício, de três pisos, foi o primeiro prédio da avenida. Hoje há mais dois ou três, mas alguns nem chegaram ao fim da sua construção
A avenida tem dono, ou dona, ou donos, uma fundação, que tem limitado tudo e todos, sob o grande desígnio de esqueletos de portugueses e castelhanos se andarem, ainda, a batalhar, nos campos de S. Jorge. É “tudo “ deles.
Dizem que não, em falinhas mansas, mas lá vão ameaçando, e a rua começa a ter o aspecto de um redil: de vez em quando, um novo terreno não construído, uma casa, uma esquina são limitados por cordas, como se fosse um risco na terra, do jogo do mundo, conquistado a canivete, prego gigante ou chave de fendas.
É como se , por aqui, fossemos mouros, e a fundação viesse com a cavalaria, de norte, fazendo cruzadas de reconquista cristã. Se a fábrica de tijolo do extremo sul ainda estivesse activa, a fundação ousaria ser a padeira
e, nós, mais do que sete, seriamos enfiados, a golpe de pá, nos seus grandes fornos.
O extremo norte da rua, já foi conquistado,do lado esquerdo. Fizeram obras caras e reactivaram um museu, e fizeram jardins. Esta é a parte boa, podermos desfrutar da calma do local. Há anos que se fala de uma invasão generalizada para construção de um mega parque de diversões, mas dizem que são só as más línguas, como a minha…
Caminhando para sul, passamos pela capela, pelas ovelhas, por uma bando de casas velhas, cordas, umas estufas de flores, um ou outro cafézito e o recinto das festas, que deixou de ter lugar no sítio do costume, agora
vedado por cordas…
Depois começam as casas, os passeios de cor e material diferentes, à esquerda e à direita da avenida, com um traçado tão sinuoso como os cumes da Serra de Aire e Candeeiros, que avistamos à esquerda.
É por aqui que eu moro, num beco afluente.
Continuando para sul temos a mercearia e tasca da velhota, e as casas vão adensado até aos núcleo da rua: os
cafés, o mini-mercado, a escola. E depois, casa velhas, casas por acabar, instalações fabris abandonadas, outras a laborar. Mais cafés, e um armeiro que vende de tudo.
Mais ao fundo, bem no final, depois das fábricas, e do campo de futebol abandonado, uma invasão oriental de mercadorias e cores, a a superfície comercial de que se fala. Invadida, sub-reptíciamente, por frutas espanholas.
