DIÁRIO DE BORDO, 29 de Maio de 2012

 

As recomendações da Senhora Christine Lagarde aos gregos sobre o pagamento de impostos, causaram justificadas reacções. Não porque as pessoas achem (Diário de Bordo tem a certeza disso) que os gregos não são obrigados a pagar impostos. Mas porque são obviamente uma pressão sobre o sentido de voto dos gregos no próximo dia 17. Mesmo que alguns que não queiram admiti-lo abertamente, todos sabem que é essa a verdadeira razão.


Ontem, a edição electrónica do Le Monde informava que a Directora-Geral do FMI também não paga impostos. Com efeito, apesar de receber 390 939 euros de salário anual, não paga imposto sobre esse rendimento, porque como funcionária internacional, ao abrigo de um estatuto fiscal específico, está isenta.


Anteriormente, a Senhora Lagarde foi ministra das Finanças de França, no governo Sarkozy, desde 2007, até ir substituir Dominique Strauss-Kahn no FMI. O Guardian, de 4 de Agosto de 2011, noticiava que um tribunal francês ordenou uma investigação para apurar se ela terá favorecido um homem de negócios, amigo de Nicolas Sarkozy, numa questão com um banco público, ao determinar que essa questão fosse tratada por um tribunal arbitral, em vez de ser julgada nos tribunais comuns. O homem de negócios é o famoso Bernard Tapie, que foi presidente do clube de futebol Olympique de Marseille, chegou a ser condenado por viciação de resultados desportivos, e também teve problemas com os impostos. Entretanto, recebeu 285 milhões de euros do banco público, por a resolução do tribunal arbitral lhe ter sido favorável. A questão relacionava-se com a venda da empresa ADIDAS.


Diário de Bordo não pretende dissecar as incongruências da Senhora Lagarde. Lembra é que esta saída da Directora-Geral do FMI, tanto mais infeliz porque se trata de alguém investido de grandes poderes, demonstra uma enorme distância em relação às populações sejam elas da África subsariana, da Grécia, de Portugal ou mesmo da França. É duvidoso que alguém no Mali ou no Níger consiga fazer ouvir a sua voz para deixar claro que o FMI não faz nada que beneficie as populações da região, tal como na Grécia. Mas é preciso também compreender  que a invectiva lagardiana aos gregos não se dirige aos armadores do país (os tais que controlam 20 % da marinha mercante mundial) e apenas aos cidadãos comuns, a grande maioria dos quais estão em situação grave ou à beira dela, os tais cuja decisão de voto é preciso influenciar, para impedir que um governo de esquerda chegue ao poder na Grécia.


Disparates semelhantes têm sido ditos em Portugal. O problema é o mesmo: grande distância entre governantes e governados. Olhem para os disparates que diz Passos Coelho, próprios de quem ignora as pressões diárias sobre o cidadão comum. Não é apenas uma distância física: é sobretudo uma distância mental. E quem se distancia desta maneira dos que diz governam, transforma estes numa sombra ténue, que acaba por se reduzir a um número sem referência. Esta distância torna-se evidentemente muito maior quando se pertence a um organismo internacional, a cujos lugares se acede através de procedimentos opacos. Já que falamos do FMI, lembremos o ilustre funcionário que esteve entre nós a semana passada e, olimpicamente, declarou que o desemprego não diminui porque os salários continuam altos. Falará ele ideia como se consegue viver em Portugal com 500/600 euros? Com filhos a cargo? O problema talvez seja que não está nas suas prioridades procurar inteirar-se disso.  Assim como nas prioridades de Passos Coelho não cabe tentar perceber o problema que está a criar ao cortar subsídios de férias e de Natal a funcionários e pensionistas, e entretanto admitir funcionários que auferem essas regalias. 

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