Os filhos do rocio (Memórias de uma Aldeia Palestiniana Desaparecida) – Mohammed Al-Asaad

 

 

Mohammed Al-Asaad  Os filhos do rocio (capítulo 1)

 

(tradução de Carlos Aboim de Brito)

  

 

 

(fuga de palestinianos das aldeias destruídas)  

 

 

 

   A nossa aldeia palestiniana, “Imm al-Zinat”, situa-se num cume, no limite sul do monte Carmel. Contrariamente ao que nos ensinam hoje as enciclopédias, podemos chegar lá por di­ferentes caminhos. As enciclopédias só indicam a existência de dois caminhos para atingir a altura dos 317 metros acima do nível do mar. O primeiro, o de Ma’bad, com 38 quilómetros de comprimento, liga-a à cidade de Haifa através do monte Carmel. O segundo, com 24 quilómetros de comprimento, atravessa o vale Marj Ibn ‘Amer.

 

Mas os aldeões podem chegar à aldeia por muitas outras vias: através de trilhos acidentados, das piteiras-amarelas e dos aloés, ou ainda pelo caminho rugoso que conduz à fonte d’Imm al-Darj. Foi aqui que se desenrolou, em 1936, a revolta contra as forças britânicas. A sul, longe das estradas asfaltadas, os aldeões podem alcançar livremente Imm al-Chuf e Imm al-Fahm. Gra­ças ao engenho do camponeses, todos os caminhos conduzem a Imm al-Zinat. O vale do Sal, Wadi al-Malh, despido de árvores, continua a ser a passagem de que os camponeses mais se recor­dam. Estende-se para leste da Palestina, até que se tornou numa floresta, de acordo com a profecia do Xeque Hamsa, um dos anciãos da aldeia.

 

Todos estes lugares e caminhos estão ligados a acontecimen­tos. Não há um único lugar que não esteja gravado na memória e que não corresponda a um episódio particular. Se tivéssemos tido a possibilidade de esmiuçar estes acontecimentos e estes lugares durante uma ou duas gerações, ou mesmo centenas, tería­mos obtido uma epopeia. Ela teria testemunhado que a história humana inscrita nos livros e nas enciclopédias não passa de um pequeno fragmento da realidade.

 

Seguindo as etapas da implantação sionista, a nossa aldeia fez parte daquilo que iria chamar-se “Israel” — mas não sem se ter revoltado contra a resolução das Nações Unidas relativa à partilha. Como todas as resoluções — sumárias, enciclopédicas e históricas —, esta apagou os traços físicos e humanos pró­prios desta pequena região.

 

Mas recordo-me do meu avô nessa aldeia, a não ser que se tratasse de uma lenda, nos anos vinte deste século tempestuoso. Tinha despertado com o cantar do galo para se dirigir a Haifa. Uma vez arreado o cavalo, tinha-se estendido no salão para be­ber o café e fumar o primeiro cigarro do dia. A minha avó tinha esperado por ele muito tempo e tinha ido recordar-lhe que o sol já se tinha erguido, que as ondas do mar se reflectiam no sopé da montanha, em frente da sonolenta Haifa. Tinha encontrado o meu avô com a cabeça caída para o lado. Estava morto. A mi­nha mãe contava-nos como a tristeza da minha avó foi infinita, porque o avô era insubstituível. A tal ponto que tinha batido no peito com pedras.

 

A resolução estava ali para apagar os pormenores, os por­menores dos pormenores, mesmo os pormenores retidos por mim, então uma criança. Tal como um ser recorda um sonho e, de repente, tudo o que tem nas mãos são fotografias… sem qualquer movimento. Fotografias daqui… fotografias dali. E um dia desperto, depois de todos estes anos, e revejo em mim toda uma aldeia com os seus caminhos. Caminhos que os livros escolares reduzem a um ou dois trilhos, enquanto que os al­deões conhecem centenas. Quantas vezes ouvi o nome do  Haramis, Bir al-Haramis, nomeadamente quando a minha mãe o evocava ao falar do passado. Qualquer facto relatado estava ligado a um lugar. Para os aldeões, o tempo não é marcado por datas, esses números abstractos, mas por acontecimentos vitais: períodos de colheita, de seca, de revolta, de sedições. E a chegada dos britânicos para cercar a casa e destruir as provi­sões de Verão e de Inverno. Misturavam o trigo com o pó, o azeite com a cal e perseguiam as galinhas para lhes esmagarem a cabeça na cal.

 

Cito o nome deste poço com ternura e melancolia, sem saber a sua origem, porque nunca lá fui. Mas sempre o imaginei para o integrar na minha memória e fico chocado quando leio este nome escrito de maneira diferente. Como é estranho e sombrio, tal como o da colónia implantada no lugar da aldeia da minha infância, com o qual não posso deixar de o comparar. Leio que depois de terem destruído a nossa aldeia, os sionistas construí­ram a um quilómetro dali uma colónia denominada Elyakim. Um nome obscuro, sem qualquer significado. Não sei a que se assemelha agora esta colónia. Mas do que tenho a certeza é que as nossas casas estão ali, invadidas por cactos, oliveiras e piteiras-amarelas. A nossa aldeia continua a existir. As árvores cres­ceram na sua terra, sobre as pedras; mais tarde, formaram uma floresta. Se esta floresta ardesse, veríamos as casas da minha aldeia com as suas estradas, asfaltadas ou não.

 

 

As minhas felicitações ao escritor colono, Abraham Yehoshua, a quem, nos seus pesadelos recorrentes, a minha al­deia surgiu depois de terem lançado fogo à floresta. Tinha tido a mesma visão que eu, refugiado cujos vestígios de vida anterior foram totalmente apagados. Não terei também eu o direito de recuperar os nossos sonhos e as recordações daqueles que vi­ram o que eu vi quando era criança? Não deverei eu opor-me às resoluções das Nações Unidas que ignoram o meu nome e o do meu avô? Que ignoram a história de Imm al-Zinat como se ignora a da rosa?

 

Decidiram que só havia um caminho ou dois, quando exis­tiam vários. Quando nos afastamos da nossa aldeia, disposta como a palma da mão no cume do monte Carmel, descemos pe­los matos ásperos das oliveiras e descobrimos uma ou duas casas erguidas no meio da vegetação. Depois, as estradas ramificam-se de sul para norte, de leste para oeste e transversalmente.

 

O único autocarro da região parava perto da nossa casa na estrada de Haifa. O meu irmão mais velho descia dele. O nosso galgo, de que gostávamos ao ponto de meter as mãos na sua boca esbaforida, corria para ele. Assim, a memória tem uma ra­zão de existir. Quando um dos aldeões regressou para se escon­der na nossa casa depois da ocupação de Imm al-Zinat, disse ter visto manchas de sangue e comentou:

 

— Certamente transferiram alguns dos seus mortos para a nossa casa depois do ataque.

 

A minha mãe respondeu-lhe:

 

— Não, foi o nosso cão que não sabia para onde ir e regres­sou, eles ouviram-no e abateram-no.

 

Quando a minha mãe me fala das estradas, descubro então um outro mundo. Um caminho sobe para a cidade, outro segue para Wadi al-Malh, para o vale do Sal, e serpenteia através das plantas, outro conduz ao grande campo verdejante de al-Roha. Um trilho segue para Imm al-Darj, um segundo para a fonte, e mais dois para Osfya e Dalya1. Perco-me nos pormenores, não sei se o nome citado se refere a uma aldeia, um poço, uma fonte ou um campo de oliveiras, a quem foi dado como se faz a uma criança. Na minha pátria tudo tem um nome, da pedra à árvore, até às estações do ano, aos frutos e aos seres. Nada fica sem nome, por vezes uma coisa ou um lugar tem mesmo dois nomes.

 

Parece-me que a minha imaginação está prenhe da aldeia e do que a rodeia, como se os meus pais tivessem realmente ha­bitado uma floresta de nomes. Uma pátria não elege domicílio na língua clássica, mas ela é, de facto, mais eloquente que esta última. Compreendemos, pois, a má vontade do colono contra os nomes palestinianos. Na Palestina tudo assedia o estrangeiro — até ao desespero. Em cada lugar um ser humano plantou uma árvore, vêem-se casas em cada colina da aldeia junto de cada vale, parecem estar ali desde a criação do mundo. Vira uma pedra e contempla-a… Aperceber-te ás que ela não é totalmen­te natural. Os vestígios de um arado, de um golpe, moldaram-na. A Palestina desse tempo já tinha um passado histórico.

 

Só o xeque Hamsa estava mais vivo do que todos os dossiês das Nações Unidas e todas as estratégias do Ocidente. Era um dos nossos vizinhos, não tinha propriamente idade. Conhecia o seu nome desde a mais tenra infância. Era velho: o meu pai fa­lava dele como alguém mais do que centenário. Outro, quarenta anos mais tarde, evocava-o como se tivesse mais de duzentos anos. A família pensava que este velho sábio lia e predizia o futuro porque anunciava factos espantosos para o futuro próxi­mo. Falava-lhes do vale do Sal desértico que um dia viria a ser uma floresta. “Ele lia os livros”… Os aldeões pronunciavam esta frase com temor. Ao ouvi-los, compreendes então como as suas almas estão cheias de recordações obscuras desta mãe pátria sagrada e perdida.

 

Os livros e as tábuas desapareceram; mas a escrita e o livro permaneceram sagrados e inatos, como que impressos no seio da alma… Como se o alfabeto tivesse atingido o seu fim pri­mordial, ele próprio traduzido em vida. Então, o homem transmutou-se em texto.

 

O nosso xeque2 ficou ali. Um dos nossos parentes conta­va-nos que o tinha visto depois de todos estes anos, depois de 1967. Isto é, desde que toda a pátria, no seu conjunto, foi ocupa­da. Pediu-lhe que lhe dissesse o que contavam os livros porque tudo o que ele tinha predito no passado acontecera… O que ia acontecer agora? O velho tinha replicado:

 

— Não vês que o vale do Sal se transformou em floresta? Não acreditaram em mim. Mas eu sei que agora os árabes vão vencer. Unir-se-ão com os moscovitas. E quando a roda da his­tória gira contra os judeus…

 

O contador interrompera-se, de olhar fixo, como se no meio da narração regressasse à aldeia.

 

Os nossos parentes acreditavam muito nas profecias. Fala­vam dos livros judeus onde se dizia que Israel ganharia até ao momento em que haveria uma grande mudança. Então perderia para sempre. Animados por esta convicção, os nossos parentes deslocavam-se amiúde à aldeia. As enciclopédias ignoravam-nos, os livros políticos não compreendiam o que eles sabiam. Cada um conhecia a sua aldeia e transmitia este saber aos seus filhos com todos os pormenores, os nomes das famílias, as dis­putas, os mal-entendidos… e as datas. Os livros oficiais haviam–nos desiludido porque ignoravam os caminhos que conduzem à sua aldeia. Tal como ignoravam os nomes das pedras, dos vales, das árvores e das pessoas. Reduziram a sua aldeia a um ponto no mapa e esqueceram o seu panorama. A minha mãe falava-me dos diferentes caminhos percorridos pelos aldeões de Kafr al-Cheikh, de al-Chuf, de Imm al-Darj e de Imm al-Fahm. Recordo-lhe aquela manhã enevoada em que eu andava na escuridão, rodeado de pessoas que, perdidas no nevoeiro, se chamavam de uma rocha para a outra. Esta obscuridade acima das nossas cabeças que as brasas trespassavam. Este sono que recusava fechar-nos os olhos. Fantasmas surgidos na obscurida­de, reunidos à volta de fogueiras improvisadas. Os nossos olhos esmiuçavam todas estas cenas e guardavam-nas na memória. Essa noite era a do êxodo de Imm al-Zinat, depois de os judeus a terem ocupado. É na minha memória que a aldeia reaparece, com os seus nomes, os seus habitantes, e todos os caminhos que a ela conduzem.


1Trata-se de Dalyat al-Carmel.

 

2A palavra “cheikh” tem vários sentidos. Aqui, significa uma pessoa respeitada. Pode também significar chefe de tribo, ancião ou ainda chefe religioso.

 

(in Mohammed Al-Asaad, Memórias de uma Aldeia Palestiniana Desaparecida – narrativa comentada por Joseph Algazy, Campo das Letras)

 

  

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