(Continuação)
Joseph Ratzinger não se parece em nada com Karol Wojtila. Se bem que seja verdade que os ligava uma grande amizade e que João Paulo II se apoiou no cardeal alemão até à morte. O polaco era luminoso, cordial, infatigável.
Passava o dia apertando mãos, sorrindo, percorrendo o mundo. Ao ponto de, ainda hoje, quando passeamos pelo centro de Roma, ficarmos com a impressão de que o Papa continua a ser o polaco, pois são os seus postais os mais presentes, e os que mais se vendem. Não era difícil, portanto, falar com João Paulo II, fazer-lhe chegar uma mensagem. A Bento XVI, pelo contrário, não agradam as relações humanas. É tímido, embora cordial, consciencioso, paciente, amante da leitura, mais interessado nos assuntos do céu que nos da terra. De facto, apenas alguns cardeais escolhidos —Ruini, Scola, Bagnasco— conseguiram fazer-lhe chegar a sua opinião desfavorável a Bertone. Sucedeu há um ano, durante um almoço no palácio de Castel Gandolfo, a residência de Verão do Papa. Os restantes Têm de se conformar em utilizar um canal. O do fax do padre George Gaenswein…
Os cargos financieros estão em mãos italianas, apesar de os norte-americanos serem os maiores contribuintes.
Um canal que, desde o Verão passado, deixou de ser seguro. O primeiro golpe chega com a divulgação, através de um programa de televisão, de uma carta do arcebispo Carlo Maria Viganò, actual núncio nos Estados Unidos, na qual revela ao Papa diversos casos de corrupção dentro do Vaticano e lhe pede para não ser destituído do seu cargo de secretário geral do Governatorato —o departamento que se encarrega de licitações e de abastecimentos—. Viganò, no entanto é enviado para longe de Roma pelo secretario de Estado, Tarcisio Bertone. Diversas fontes asseguram que o Papa chegou a chorar com aquela decisãao, mas não se atreveu a contradizer Bertone. A segunda revelação põe a descoberto um suposto complô para matar o Pontífice. Trata-se de uma carta muito recente enviada a Bento XVI pelo cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos na qual lhe conta que o cardeal italiano Paolo Romeo, arcebispo de Palermo (Sicilia), acaba de efectuar uma viagem à China durante a qual teria comentado: “O Papa morrerá dentro de 12 meses”. Mas não apenas isso. Segundo a carta do bispo colombiano, escrita em alemão e sob o selo de “estritamente confidencial”, o arcebispo de Palermo não teve papas na língua naquele país asiático contando supostos segredos do Vaticano tais como que o Papa e o seu número dois, Tarcisio Bertone, se farão matar e que Bento XVI está a deixar tudo bem preparado para que o seu sucessor à frente da Igreja seja o actual arcebispo de Milão, o cardeal Angelo Scola. As divulgações de documentos, embora feitas ainda a conta-gotas, emocionan o Vaticano. O seu porta-voz, o padre Federico Lombardi, chega a admitir que a Igreja está a sofrer o seu particular Vaticanleaks. L’Osservatore romano publica um editorial onde se descreve a situação de Bento XVI: um pastor rodeado por lobos.
Paolo Gabriele, entretanto , continua a chegar todos os dias às seis da manhã ao Apartamento para despertar o Papa. É um privilegiado. Todos os trabalhadores do Vaticano o são. Não ganham um grande ordenado, mas fazem parte da equipa de uma empresa com 20 séculos de antiguidade que difícilmente irá à falência, com prestigio social na cidade de Roma e uma série de vantagens — habitação dentro dos 40 hectares do Vaticano, gasolina muito barata— privilégios que na maioria dos casos´são herdados pelos filhos. A tormenta que naqueles dias finais de 2011— flagelava a Igreja , amainará. Como sempre pelos séculso dos séculos. Conta-se um episódio muito elucidativo. Há anos, um jornalista espanhol aludiu junto de um cardeal a um conflito aberto no seio da Igreja. O purpurado, muito sério, iniciou assim a sua resposta: “Já tivemos esse problema no século XIII…”.
O Banco do Vaticano está a ser submetido a uma investigação por uma suposta violação de normas antibranqueamento.
A resposta, embora com palavras diferentes, continua a ser a mesma, inclusivamente a mais comum durante os dias posteriores à detenção de Paoletto: “Tivemos já problemas parecidos, e mesmo maiores e sempre fomos em frente. Talvez o que agora seja diferente é a velocidade e a grandeza na difusão da notícia. Isso e não a sua gravidade, é que tornam o problema maior”. Um problema, uma guerra de poder, puramente italiana. Quer os nomes que ilustram esta história de intrigas e de golpes baixos, como las armas escolhidas para o duelo possuem marca de origem. “Um jogo típicamente italiano”, é como o qualificam alguns meios de informação. Por outro lado, existe uma razão de peso para que seja assim. A cadeira de Pedro tem sido cupada por estrangeiros desde 1978. A un Papa polaco (João Paulo II, desde 1978 a 2005) sucedeu um Papa alemão (Bento XVI, desde então até hoje), e se os cardeais italianos com menos de 80 anos —os únicos que podem participar no conclave— não se acautelam, podem perder uma oportunidade de ouro. Hoje, os purpurados eleitores são 122. Italianos, 30 (menos de um quarto), norte-americanos, 11, y alemães, 6. Se quando Joseph Ratzinger morrer, ou resignar, não for sucedido por um italiano, da próxima vez será más difícil.
(Conclui amanhã)

João Paulo II (Jan Paweł II em polaco) dificilmente será igualado. Tive o prazer de estar, na minha vida em Cracóvia, em igrejas por onde passou mais demoradamente, aprendi numa escola onde ele aprendeu e ensinou, e ainda passei de autocarro na terra de onde ele era, Wadowice. Para breve a transformação em S. João Paulo ÎI, certamente, e merecida.