*Médico psiquiatra
Transcrito com a devida vénia do jornal Público de 15-03-2010
Ninguém pode ficar indiferente ao enorme sucesso das redes sociais da Internet, contando já com milhões de utilizadores. Mas que riscos e consequências estarão ligadas a esta nova forma de relacionamento social virtual? Sem cair em estereótipos, e em fundamentalismos redutores, julgo que há uma tendência neste recente instrumento de relacionamento humano introduzido pela Internet.
Neste caso parece existir uma busca pela auto-valorização e uma necessidade exibicionista de atenção e admiração. Esta última característica torna-se bem visível pela forma como se arrecada “amigos”, aos milhares, como se fossem troféus de caça social. Portanto, na amizade, desvalorizou-se a qualidade para se dar a primazia à quantidade, o que não é mais do que um reflexo da sociedade de consumo nas relações sociais.
As relações sociais virtuais da Internet são bastante diferentes das relações sociais reais. Alimentam-se fantasias e cada um mostra aquilo que tem de melhor: a beleza, o êxito, as férias fantásticas, os momentos de felicidade, etc. Habitualmente o indivíduo promove-se na rede social como uma pessoa de sucesso, expondo as suas vitórias e ocultando propositadamente os seus fracassos. É nesta imensa revista cor-de-rosa, irreal e fantasiosa, que as pessoas se relacionam umas com as outras, evitando as regras da verdadeira rede social, bem mais complexa e difícil. Seja como for, parece não existirem dúvidas de que se criou um certo consumismo social, sem esforço, e acessível a alguns toques no teclado do computador. Porém, as redes sociais da Internet, no sentido em que são redes virtuais e menos complexas, podem surgir como uma forma de resistência à aquisição de uma verdadeira aprendizagem social, promovendo a regressão e a imaturidade.
A amizade criada no mundo real demora tempo a consolidar-se e passa por diversas provas que nada têm a ver com as pseudo-amizades do mundo virtual. Por essa razão, nenhum relacionamento através do computador substituiu a experiência da presença humana: a troca de olhares, a expressão facial, os gestos, o tom de voz, etc.
As redes sociais favorecem o empobrecimento do relacionamento social – criandose novas formas de solidão – porque as relações pessoais reais são mais ricas e profundas.
Não se pode discutir as redes sociais da Internet sem falar em segurança. Por diversas vezes, as polícias têm alertado para os perigos de se divulgarem informações pessoais na rede. Por exemplo, uma vez colocada uma fotografia pessoal na rede social, ela poderá ficar na Internet para sempre, perdendo-se por completo o seu controlo. Curiosamente, este fenómeno reflecte um paradoxo. Numa altura em que se investe cada vez mais em segurança, através da videovigilância, alarmes, etc., na Internet as pessoas expõem-se cada vez mais, abrindo as portas da sua vida privada, sem reflectir nos perigos que isso representa.
Importa sublinhar que as redes sociais reflectem o que há de melhor e pior na natureza humana, com a diferença de possibilitar aos indivíduos perturbados psiquicamente – que existem em largo número em todas as sociedades – actuarem facilmente dissimulados, diminuindo a possibilidade de serem detectados. As redes sociais tornam-se assim uma ferramenta útil para as mais vis maquinações. Um magnífico caldo de cultura para que várias mentes perigosas possam florescer e movimentar-se facilmente na cobardia do anonimato, encorajados pela diminuição dos vários mecanismos de prevenção e segurança de que a sociedade dispõe.
Espantosamente, milhões de pessoas passam cada vez mais tempo nesse mundo virtual agarrados obsessivamente ao computador. Este é um sinal preocupante de desumanização da nossa sociedade uma vez que esta emigração maciça para o mundo virtual pode revelar-se como um início de psicose colectiva: como esta realidade não é conveniente, as pessoas refugiam-se noutra imaginária.
O crescimento vertiginoso das redes sociais demonstra que o Homem, outrora sonhador, com ideias e valores, está a capitular. Desistiu de lutar por uma sociedade melhor, cedeu ao facilitismo, e renunciou viver neste mundo. Por tudo isto, adaptando um slogan antigo, talvez valesse a pena dizer: redes sociais não, obrigado.

Apoiado! Gente de carne e osso, não fantasmas.
Fico entre o apoio e a resistência, porque falta mesmo analisar que relacionamentos são estes – porque existem – e qual o impacto que têm no comportamento enquanto seres relacionais. O que assusta é o exagero, levando a que se substitua o que não é passível ser substituído. É uma época onde a tecnologia na área da comunicação,de facto está a ser promotora de mudanças que pedem a nossa atenção, por aquilo que estamos a perder.Descobri hoje mesmo um filme que me parece reflectir esta preocupação. Deixo aqui o link:http://connectedthefilm.com/
Quando me refiro ao relacionamento com gente de carne e osso – embora o prefira no verdadeiro sentido da expressão -, não quero dizer apenas contacto físico mas, pelo menos, com gente de quem tenhamos referências credíveis e não daqueles milhares de “amigos” que andam por aí caídos não se sabe de onde, nem se são quem dizem ser. Como dizia a psicóloga americana dum vídeo que aqui publiquei, o que andamos a fazer é a esconder as nossas vulnerabilidades, a proteger o medo que temos de nos olharmos nos olhos e a relacionarmo-nos tal como somos. A anular a complexidade e a riqueza da vida. E eu estou de acordo com isso.
Também estou de acordo com isso. As palavras aqui são traiçoeiras. Ninguém tem 5000 amigos, mas contactos. Aqui é que a porca torce o rabo. O sentido da palavra vai-se desgastando. E é bom entender isso.Como é crucial olhar para o que está a acontecer. Isto a trazer mudanças comportamentais. Até onde este paradigma que nos orienta vai nos levar? Não será necessário ensinar ao robô o que é isto das emoções, porque nós nos aproximamos da máquina antes. O que fazer, Augusta? Não se acerta o que está mal de raiz, não achas? Isso é como dar ansiiolticos que adormecem e não nos deixam lidar com o problema. E leva um abraço, ilustre desconhecida!
Ahahaha ! Eu não te considero, de modo nenhum, uma ilustre desconhecida, embora ainda não tenha olhado para o teu narizinho. Um grande abraço.