Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota.
Nota de abertura
O nosso Primeiro-ministro diz que custe o que custar temos que ir rapidamente aos mercados. Desses mercado tentaremos ilustrar o que são e o que fazem alguns exemplares que nesses mercados fazem lei, a sua lei, e a sua lei essa é a nossa desgraça. Dentre eles estarão JPMorgan, a UBS, o Crédit Suisse e tantos outros do mesmo quilate. O nosso Primeiro-ministro tem andado a procurar colocar as nossas gentes no desemprego porque assim os coloca numa boa posição para poderem mudar de vida, para largarem essa famosa zona de conforto que é a família, que raio de católico ele é, tem andado a despedir gente ou fazer com que muita dela seja despedida.
Admito que tenha acontecido o mesmo na Polícia Judiciária e que também por aí faltem muitos quadros para levar a cabo a conclusão dos processos de quem sempre se vai escapando à justiça em Portugal e aqui lhes deixo uma dica face aos nossos Isaltino de Morais, aos nossos Duarte Lima, que por este país campeiam: vejam o processo UBS, vejam as fontes americanas, as audições, o processo no Tribunal, vejam os métodos de trabalho do banco UBS, os métodos estão lá todos descritos, vejam agora o caso francês também. Ilustrativo e poupam tempo e dinheiro para saberem como é , poupam tempo e dinheiro para poderem fazer avançar as investigações. E que avancem:
E bons resultados nas vossas pesquisas.
Júlio Marques Mota
1. O gang dos banqueiros
Le Monde, LE GANG DES BANQUIERS D’UBS
Eu sou Tarântula. “Não é meu nome verdadeiro, mas as informações que vos vou entregar poderão colocar em perigo a minha vida e acabar com o segredo bancário na Suiça.” Quando, em Agosto de 2007, o escritório do Financial Times em Zurique recebe este misterioso telefonema, quase ninguém tinha ainda ouvido falar ouvi falar de Bradley Birkenfeld, o homem através de quem o escândalo UBS se tornou conhecido.
Esta “garganta funda”, um ex-banqueiro de UBS, parece então animado por um forte desejo de vingança contra o seu antigo empregador. Depois de cinco anos passados a trabalhar na divisão de gestão de fortunas de Genebra para a zona das Américas, ele diz querer fazer revelações surpreendentes. Poucos meses depois, ele fá-las-á à justiça americana. Ele conta então e por sequência uma história surpreendente: a história de uma brigada de banqueiros privados sediados na Suíça, de que ele fazia parte, e que, de 2001 a 2007, viajaram para os Estados Unidos com métodos de espiões para atrair fundos não declarados ao fisco americano de milhares de americanos ricos.
A fraude incide em milhares de contas secretas abertas em nome de sociedades offshore, trusts e fundações, no valor de 20 mil milhões de dólares (14 mil milhões de euros). Em violação dos compromissos tomados: em 2001, UBS, como as outras instituições suíças, assinaram um acordo com os Estados Unidos – o Qualified Intermediary (QI) – em que se comprometiam a fornecer a identidade dos seus clientes americanos às autoridades fiscais do seu próprio país. Oficialmente, o banco não tem o direito de trabalhar nos Estados Unidos a partir da Suíça.
Bradley Birkenfeld (2) vai encadear as suas histórias perante o Internal Revenue Service (IRS, o fisco americano). Ele também é ouvido pela Subcomissão de investigação permanente do Senado. Na base de documentos e da sua própria experiência, este quadro descreveu o incrível cozinhado dos banqueiros de investimento de UBS. Uma colaboração que não o salvou de ser julgado e condenado na sexta-feira, 21 de Agosto, a três anos e quatro meses pelo Tribunal Federal de Fort Lauderdale, na Flórida, por ter ajudado um milionário americano, Igor Olenicoff, a ocultar cerca de 200 milhões de dólares.
Havia cerca de 25 pessoas em Genebra, 50 em Zurique e de 5 a 10 em Lugano (…). Era uma máquina poderosa. “Eu nunca tinha visto um banco importante fazer tais esforços para atingir o mercado americano”, diz Birkenfeld, a 11 de Outubro de 2007, aos auditores da Subcomissão de investigação permanente do Senado.
Quatro a seis vezes por ano, os banqueiros, conta ele, vão às maiores cidades dos Estados Unidos para se reunirem com os seus ricos clientes e atrair outros. O Departamento de Segurança Interna (Hommeland Security, DHS) elaborou uma lista de 500 viagens efectuadas de 2001-2008 por cerca de 20 banqueiros.
Durante essas visitas, que duravam entre uma a duas semanas, o ritmo era frenético. “Tínhamos que assistir a eventos desportivos. Tínhamos que ir aos salões de automóveis e às provas dos grandes vinhos… A ideia era ir aos locais por onde anda a gente rica e falar com eles”, diz Bradley Birkenfeld. O passo mais difícil era entregar o nosso cartão de visita durante um cocktail: “as pessoas viam imediatamente em nós alguém que pode abrir novas perspectivas e novas contas bancárias”.
(continua)

