Algumas das mais significativas palavras escritas pelo maestro António Victorino d’Almeida no seu livro Músicas da Minha Vida sobre os Concertos para piano e orquestra de Beethoven:
“A forma musical do Concerto — seja para piano, violino ou qualquer outro instrumento solista que toque em conjunto com uma orquestra — vem de uma expressão que, na sua origem etimológica, queria dizer: combate…
(…) Interessa focar, isso sim, que os Concertos de maior qualidade estabelecem um claro contraste ou mesmo uma certa forma de luta entre o solista (ou os solistas, tal como acontece nalguns casos) e a orquestra, sendo que essa espécie de oposição se revela muito mais viva e interessante do que o conceito de um instrumento totalmente dominador que se faça pura e simplesmente acompanhar por outros… (…)
Mas estará efectivamente em Beethoven a pedra angular do grande Concerto para piano, que constituiu um dos maiores valores patrimoniais na arte do Romantismo.
Com Beethoven, o Concerto para piano passa a ser mesmo e apenas para piano, pois o instrumento já adquirira uma identidade própria e inconfundível, impondo-se galopantemente na cena musical do século XIX.
Os espectáculos com orquestra passaram muitas vezes a iniciar-se com um Concerto no qual o compositor também podia afirmar-se como solista ou mesmo como virtuose, seguindo-se uma sinfonia ou outra obra considerada de maior seriedade e relevância estética — e Beethoven soube tirar partido dessa prática para ganhar as simpatias do público vienense.
Simplesmente, o conhecimento dos cinco Concertos para piano e orquestra de Beethoven mostra-nos claramente como o compositor era avesso a todo o tipo de cedências: trata-se de obras magnificamente construídas e orquestradas em que o confronto (o tal combate, no bom sentido…) entre o solista e a estrutura sinfónica ganha contornos apaixonantes.
(…)
Até na forma de lidar com as reacções emotivas das massas, Beethoven era um mestre…”
Tenham uma boa tarde de música.
Beethoven Concerto para piano nº. 4
(ao piano Maurizio Pollini)

