Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
2. Madrid recusa um plano de ajuda internacional e teima em gerir a sua crise bancária, sozinha
As dificuldades do Estado alimentam as dificuldades dos bancos e vice-versa. As taxas de empréstimo disparam
Nesta fase, Mariano Rajoy não quer sequer ouvir de ajuda internacional, está fora de questão que a Espanha venha a recorrer à ajuda internacional para ajudar o sector bancário. “Não haverá nenhum resgate” do exterior, disse segunda-feira, 28 de Maio, o chefe do governo conservador.
Rajoy afirma que Madrid tem os meios para poder recapitalizar os seus bancos e conta bem fazê-lo sozinho para trazer a confiança aos mercados. No último G8, Rajoy tinha já muito secamente respondido a François Hollande, que tinha evocado a hipótese de uma intervenção europeia a favor dos bancos espanhóis.
Os mercados, eles, têm claramente dificuldade em imaginar como é que a península, numa grande tormenta desde há quase dois meses, vai conseguir encontrar as 19 mil milhões de euros que Bankia, o quarto banco no país, está a precisar. Na segunda-feira, as taxas exigidas pelos mercados para financiar a dívida de Madrid atingiram um nível sem precedentes desde o final de Novembro de 2011, ou seja, 6,47% para os títulos da dívida pública a dez anos. Quanto ao spread, diferença entre a taxa de juro paga neste caso pela Espanha e paga pela Alemanha para a mesma maturidade, – este atingiu igualmente valor histórico, 5,11 pontos de percentagem.
O Ministério espanhol da economia explicou que há duas possibilidades para recapitalizar Bankia pelos seus próprios meios. A primeira é óbvia: a Espanha deveria emitir títulos da dívida pública para então injectar esse dinheiro no banco através do fundo de reestruturação bancária (FROB). Uma injecção de capital em troca de acções que não afectaria o défice público, mas que seria muito cara tendo em conta as taxas de empréstimos exigidas a Madrid pelos mercados financeiros.
O Ministério espanhol da economia está a estudar uma segunda pista: trocar as novas acções que o banco emitiria para aumentar o seu capital contra títulos de dívida pública. Assim, a Espanha não teria necessidade de emitir novas obrigações e Bankia poderia então fazer já na posse destas obrigações de Estado, ir aos mercados levantar fundos e dar estas obrigações como colateral, como garantia, para obter liquidez nos mercados ou junto do Banco Central Europeu.
A nível europeu, Rajoy preferia neste momento a intervenção pelo Banco Central Europeu (BCE): Rajoy sugere-lhes que relancem o seu programa de recompra de dívida pública, a fim de fazer baixar as taxas dos empréstimos espanhóis. Mas a instituição não pretende reactivar de momento este instrumento da sua política em tempo de crise, o que não faz desde há onze semanas.
Além disso, Rajoy recusou-se a recorrer ao fundo de socorro europeu para ajudar os bancos, afim de não ter que passar pelas forças caudinas da zona euro. Os fundos não podem, de facto, recapitalizar os bancos directamente sem programa de ajustamento assinado com o governo espanhol. Esta condição muito exigente tem dado origem a debate na zona euro: François Holland pede uma intervenção mais directa, como Rajoy aliás, o que nega a Alemanha até hoje.
“Alterar o funcionamento dos fundos promete ser uma tarefa a longo prazo, diz-se em Bruxelas”. Ninguém se mexe verdadeiramente para ajudar a Espanha: o ideal é fazer tudo o que for possível para que a Espanha mantenha o acesso aos mercados. ” Sem saber se esta abordagem é defensável por muito tempo, sobretudo em caso de contágio vindo da Grécia.
Actualmente, as taxas exigidas pelos mercados tornam a situação extremamente delicada: “A Espanha não pode aguentar um spread a este nível a não ser mesmo por muito pouco tempo, por meses apenas, sublinha uma fonte governamental. Daqui ao fim do ano Madrid deve ainda levantar emprestado nos mercados cerca de 39 mil milhões de euros no mínimo, ou seja – sem tempestades a mais- isto representa 45% do seu programa de financiamento para 2012, de acordo com os cálculos por Natixis Bank.
Se, de acordo com fontes do Ministério da economia, “as taxas dos títulos da dívida pública de Espanha são mais graves do que as situação do sector financeiro”, os dois elementos estão de facto intimamente ligados.
Porque os bancos espanhóis se tornaram nestes últimos meses os principais compradores da dívida espanhola, que deve actualmente representar, 80,9% do produto interno bruto de 2012 (contra 36% em 2007). Em resumo, a dívida deve ser usada para ajudar estes mesmos bancos espanhóis que compram dívida… A falência de uns deve pois, obrigatoriamente, implicar a falência do outro. E vice-versa.
Os bancos locais compraram maciçamente dívida espanhola depois de duas operações de empréstimos a três anos do BCE em Dezembro de 2011 e em Fevereiro, de que foram os principais beneficiários. Resultado, a parte da dívida espanhola nas mãos das instituições de crédito aumentaram em cerca de 13.49% e em Novembro saltaram para 29,56% hoje, de acordo com o Conselho de administração do Tesouro. Ao mesmo tempo, os investidores estrangeiros fugiram deste mercado: eles não têm mais em carteira do que 38,11% da dívida total de Madrid, contra 55,46% em Novembro… “Os mercados estão a ser cada vez mais nacionais e a Espanha é a mais afectada, diz-se no Ministério da economia.” Em Maio, apenas 20% a 30% da dívida emitida foi comprada por estrangeiros.»
Clément Lacombe, Sandrine Morel (à Madrid) et Philippe Ricard (à Bruxelles), Le Monde, 30 de Maio de 2012

