MUNDO CÃO – A provocação que faltava – por José Goulão

Vamos então a factos: os que são conhecidos e estão confirmados e os que sendo conhecidos mas estando por esclarecer lançam as bases do que poderá vir a ser a acção militar da NATO contra a Síria.

Está confirmado, pelos dois lados, que um avião militar turco entrou no espaço aéreo sírio. O que lá foi fazer pode ser lido de mil e uma maneiras, mas tendo em conta o que se passa por aqueles lados certamente as intenções não foram as melhores para a paz regional e internacional.

Também é uma informação do conhecimento geral que o avião em causa foi abatido pelas forças armadas sírias.

 

Noutros tempos, sobretudo dado o entendimento que os regimes dos dois países cultivam quando se trata de perseguir o povo curdo, talvez Damasco não chegasse a esse ponto. Nos dias que correm foi a resposta canónica a um acto de guerra, embora ela não tenha sido tecnicamente declarada por nenhum dos lados. É uma informação que corre mundo a de que o regime islamita turco transformou o país numa base de financiamento, treino e infiltração de grupos de mercenários islâmicos que combatem na Síria contra as tropas síria sob o cognome de “rebeldes”. Facto indubitável: Ancara e Damasco estão em conflito aberto.

O facto seguinte tem duas versões, com duas fontes diferentes e alguns dias de distância. A Síria anunciou rapidamente que abatera um avião militar turco invasor do seu território; a Turquia demorou pelo menos quatro dias a confessar que o seu avião militar entrou realmente em território sírio, mas “por engano” –  notável a originalidade, reparem – e foi atingido fatalmente já quando fugia e se encontrava em espaço aéreo internacional.

 

A divergência iria ser difícil de resolver e provavelmente nem haverá condições para que o assunto seja tirado a limpo. Como era de esperar em quem demorou tanto tempo a reagir, mais do que suficiente para consultar as capitais e as sedes convenientes e indispensáveis – a resposta turca invoca também o famoso artigo 4º do Tratado do Atlântico, o tal que diz em linguagem comum que se um de nós for atacado é como se fôssemos todos e então temos a obrigação de responder todos.

Resumindo os factos para definir a situação em que estamos. A Turquia solicita a mobilização da NATO para atacar a Síria em sua própria defesa porque um avião militar turco entrou indevidamente no espaço aéreo sírio e foi abatido – na Síria, segundo Damasco; em ares internacionais, segundo Ancara.

Para quem não se lembra reactiva-se aqui o registo de que há várias semanas já a Turquia admitira vir a invocar o artigo 4º da Carta do Atlântico devido à deterioração da situação existente na fronteira entre os dois países e, principalmente, tendo a noção dos presumíveis ricochetes decorrentes da desestabilização que está a provocar na Síria.

Pelo que o quadro agora exposto com a história do avião turco abatido é de 2012, século XXI, mas nada tem de original e moderno, dá pelo nome comum de provocação e tinha já lugar privilegiado no código de agitação do Partido Nazi alemão, recordem o caso do incêndio do Reichstag.

As várias provocações montadas para forçar a NATO a intervir na Síria vêm falhando sucessivamente porque a aliança tem a noção das implicações imediatas e a prazo e por isso tem hesitado, por vezes recuado. As tentativas de provocação mais recentes têm sido as de tirar proveito dos massacres de civis sírios inocentes atribuídos às tropas sírias e que poderão ter sido obra de “rebeldes”, pelo menos foram detectados erros grosseiros na campanha de propaganda associada.

Agora o caso assenta num pressuposto mais grave. Um de nós foi atacado, proclama a Turquia espetando a farpa do embaraço nas estruturas atlantistas. Que vão falar grosso, sem dúvida. E poderão agir em conformidade se quem de direito considerar as hostes prontas para a guerra e a provocação, mesmo óbvia, mais não foi do que o atear deliberado do rastilho que faltava para o incêndio se generalizar.

Voltemos ainda por uma vez aos factos comprovados nesta situação. A China e a Rússia têm advertido vezes sem conta que a NATO estará por sua conta e risco numa guerra contra a Síria. Mais uma situação que transformará essa hipotética guerra num episódio diferente dos conflitos desencadeados nas duas últimas décadas por “coligações” sob o intrépido comando da potência unipolar.

 

 

1 Comment

  1. Sem simpatia pelo regime sírio (o inimigo do meu inimigo NÂO é necessariamente meu amigo):O que não seria se tivesse sido ao contrário – um caça sírio a invadir, por engano, o espaço turco?

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