Para um capitalismo civilizado – por DipeshChakrabarty

Economia – direcção de Júlio Marques Mota

 

Quando o imperialismo, seja de Estado, seja ele de características ocidentais, quer reduzir as diferenças para criar um mercado global, vem-nos salientar Chakrabartyque:

 

A unidade da Europa não se fará impondo uma regulamentação financeira ou comercial comum ou mesmo uma política externa. A Europa precisa de outros cimentos (ligando as suas culturas, as suas ideias, as suas instituições) para forjar um forte sentido de unidade. Ora estes  “cimentos” não aparecem por encomenda: para isso é necessário deixar que as  dinâmicas culturais façam o seu trabalho e contar também com a ajuda de um pequeno empurrão da  história.

 

O mundo multipolar terá que se apoiar nas suas diferenças para satisfazer os imperativos de cada  momento.

Júlio Marques Mota

 

 

A ideia de ” núcleo duro europeu” continua a manter-se. O filósofo alemão Jürgen Habermas e o francês Jacques Derrida,colocaram-na em 2003, em termos político filosóficos: será necessário um super-Estado europeu a aplicar a sua própria política externa, para que a Europa possa falar a uma só voz? A crise que atravessa a zona euro está a reacender o debate: será necessário uma maior centralização das economias da zona euro para que se evitem as crises futuras, ou deve a União Europeia (UE) avançar para mais federalismo?

Seja como for, toda e qualquer discussão sobre a centralização deve passar por se ter  em conta a diversidade da Europa. A unidade da Europa não se fará impondoumaregulamentação financeira ou comercial comum ou mesmo uma política externa. A Europa precisa de outros cimentos (ligando as suas culturas, as suas ideias, as suas instituições) para forjar um forte sentido de unidade. Ora estes “cimentos” não aparecem por encomenda: para isso é necessário deixar que as  dinâmicas culturais façam o seu trabalho e contar também com a ajuda de um pequeno empurrão da  história.

Se numerosos efeitos perversos não podem ser ignorados, a expansão colonial europeia, outrora deu origem no mundo à existência de classes médias que, no século XX, consideraram a Europa como sendo parte da sua própria história. Quando o escritor africano americano  RichardWright anunciou, em 1955, a sua intenção de participar da Conferência de Bandung (Indonésia) que reuniu  os antigos países colonizados  que acederam  à independência, os seus amigos bem o avisaram: a Conferência seria, segundo eles, um carnaval de diatribes contra a Europa e contra o Ocidente. Mas uma surpresa aguardava Richard Wright: ele deixou a conferência com a sensação de ter encontrado  dirigentes políticos  que não poderiam ser mais europeizados e que, por muito anti-imperialistas que eles fossem,  estavam fascinados pela Europa e  desejavam inspirar-se  na “modernidade” à europeia e à ocidental.

Foi, sem dúvida, Frantz Fanon (1925-1961), grande pensador do anti-colonialismo, que melhor ilustrou este fenómeno. O seu livro Os danados da Terra (1961), obra revolucionária é, também, um hino ao pensamento das Luzes. Jawaharlal Nehru, que se tornou o primeiro primeiro ministro da Índia, agradeceurepetidamenteaos britânicos por terem alargado o “horizonte mental do povo indiano”.

Na verdade, a dominação europeiadistingue-se de outros casos de imperialismo na história pela aura  intelectual  mundial de que gozava a modernização à europeia. Um país, um povo, não tinha nenhuma necessidade de estar sob domínio europeu para querer inspirar-se nos  costumes sociais do velho continente. Basta só pensar queno Japão ou a Tailândia, que nunca foram colónias da Europa; contudo  a história da sua modernização não  se pode pensar sem a influência da hegemonia cultural europeia.

Não há nenhuma dúvida que esta Europa do espírito também tem a ver com um mito, mas com um mito extraordinariamente poderoso, o da Europa do Renascimento e das Luzes, a revolução industrial, o da  democracia e da modernidade de uma  Europa tendo  trazido ao mundo os  conceitos emancipadores e contraditórios  que são o nacionalismo, o liberalismo e o marxismo. Essa Europaera um mito, porque ela passava ao lado demuitos aspectos perturbadores e incómodos da história europeia dos últimos cinco séculos: a destruição sistemática das sociedades indígenas, a criação deliberada de formas modernas de racismo, os sistemas de opressão que eram aescravatura no novo mundo e as “missões civilizadoras”, para já nem sequer mencionar as duas guerras mundiais e as feridas profundas causadas pelo nazismo e pelo fascismo. Um mito parcial,adicionalmente, porque fazia da Europa Ocidental (Grã-Bretanha, França e a Alemanha principalmente) o berço da modernidade, afastando dessa imagem toda a restante Europa…

Hoje, este  mito da Europa esta em agonia no seu leito de morte. Em particular, porque o mundo fabricado pelos mestres colonos e pelos seus seguidores nacionalistas, depois de se terem decomposto, dividido, na década dos anos de 1950 e 1960 devido ao antagonismo das superpotências, metamorfoseou-se para se tornar na mundialização em que vivemos agora.

A queda do muro de Berlim, depois a da União Soviética e dos seus satélites contribuiu, , por sua vez, para o advento da era da globalização. A ascensão da China, da Índia, do Brasil e as dificuldades económicas dos EUA, da UE e do Japão anunciam  um mundo multipolar, que deverá  ele também  ter de enfrentar  crises de amplitude global, quer sejamsobre as alterações climáticas, quer sobre a segurança alimentar ou sobre o crescimento demográfico  ou ainda sobre fornecimento de energia a um preço acessível.

O que significa uma coisa e uma só: este mundo multipolar terá que se apoiar nas suas diferenças para satisfazer os imperativos de cada momento. Como é que a Europa, com todas as suas desigualdades e a sua diversidade, encontrará o seu lugar no mundo hoje? Ou, para colocar a questão no plano das ideias e para nos deslocarmos de um ponto de vista pós-colonial, o que é que resta (e o que deve ser mantido) da herança europeia outrora tão admirada? É talvez uma ironia da história, mas uma ironia positiva: o fim da era imperialista fornece auma Europa amargurada com a guerra uma oportunidade dese  tornar uma ponta de lança dos valores das Luzes  que ela empunhava outrora, não sem contradições, para justificar os seus impérios.

Porque, ao contrário dos Estados Unidos, as potências europeias têm a possibilidade de não terem que desempenhar o papel de polícia do mundo. E isso tem efeitos libertadores, permitindo-lhefazer pesar os valores das Luzes, que conservam um significado e uma importância universal, nos debates mais importantes. Sobre as mudanças climáticas e a questão das energias renováveis, a política e o debate público estão, em muitos países europeus, bem mais avançados sobre o que tenho visto nos  Estados Unidos, na Austrália, na China ou na Índia.

 

A herança do Estado-Providência na Europa, por muito ameaçado que agora esteja, também ele sugere um capitalismo civilizado ao qual as economias anglo-saxónicas renunciaram desde há  várias décadas.

 

Alguns consideram que é colocando-se a Europa mais perto do modelo capitalista à americana que esta agarrará melhor a questão. Eu duvido. Seja como for, nada, nem mesmo esta evolução poderá ocorrer sem um profundo debate sobre o que deve ser mantido ou não das heranças da Europa. Do meu ponto de vista, é este o debate que pode fazer emergir a Europa de amanhã, bem viva, civilizada, verdadeiramente pós-colonial.

 

Dipesh Chakrabarty, Vers un capitalisme civilisé, Le Monde,  08.03.2012 (DipeshChakrabarty, professeur d’histoire à l’université de Chicago, auteur de “Provincialiser l’Europe” – éd. Amsterdam, 2009)

 

 

Leave a Reply