Uma série, Uma viagem ao mundo da alta finança.

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Onde a Suiça lava mais branco e os europeus ricos querem estar mais limpos – III

 

  1. Inquérito UBS –Série Negra 

 

(continuação)

 

 

Um pé no acelerador

 

Como explicar essa espera, apesar de vários mensageiros que insistem, no final de 2000, sobre as ameaças que pesam sobre a UBS nos Estados Unidos devido a estas suas actividades passíveis de serem consideradas ilegais? Pior ainda, como é que o banco entra numa era de produção quase que industrial de fraude fiscal enquanto correm claramente o risco de perder o seu estatuto de QI? Ou ainda, como é que se pode explicar que o jogador de andebol, Weil, que se tornou chefe de gestão de fortunas internacional, tenha decidido colocar o pé no acelerador e passar a uma velocidade bem mais elevada usando maciçamente as empresas-écrans para esconder os títulos americanos dos seus clientes que residem nos Estados Unidos em contas offshore? Até porque são mais do que 900 as empresas deste tipo que foram criadas, todas a funcionarem como tabiques de protecção face aos fiscais do IRS. No Liechtenstein, no Panamá também.


“O modelo de negócio utilizado já estava na zona cinzenta, enquanto que agora ultrapassava os limites da legalidade. A direcção sabia-o, mas preferiu fechar os olhos e deixava os seus advogados interpretar as leis dos EUA de uma forma que lhe permitisse continuar a ganhar dinheiro”, diz-nos um advogado que defendeu um conselheiro de UBS contra o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Para ganhar dinheiro, mas também a sobrestimarem a sua capacidade em gerir os riscos assumidos face às leis – incluído a do mercado, e é pois este o estado de espírito que sustenta as práticas do maior banco suíço.


Na UBS, e por debaixo do escândalo (Favre, 2008), Myret Zaki capta este clima num outro ramo do banco UBS, o banco de negócios. Além disso, em 2006, verificava-se a existência de uma forte concorrência interna entre duas unidades do banco de investimento, com ambas a agirem em mercados altamente especulativos. Uma cultura de assassinos onde se massacram os preços, onde se bate palmo a palmo um mercado, ou onde se fazem vergar os concorrentes. Eis pois o que levará, um ano mais tarde, ao desastre que se sabe deste banco, UBS, muito envolvido no crédito hipotecário americano (subprime). Apesar dos avisos enviados a Walter Stürzinger, ainda ele, pelos operadores nas salas de mercados, os famosos traders, os traders de Dillon Read Capital Management, o fundo de investimento suíço sediado nos USA, que previram o colapso do mercado imobiliário. Resultado? Perdas de 37 mil milhões de francos desde Agosto de 2007, duas recapitalizações e, em seguida, a 16 de Outubro de 2008, um plano de resgate da Confederação Helvética e do Banco nacional suíço (BNS). Um Banco Central que aceitará retomar os activos tóxicos do tempo em que UBS era um banco de comportamentos aventureiros e no valor de 68 mil milhões de francos.


Antes da queda do Verão de 2007, é esta a mentalidade assassina que reina no banco privado UBS. E não são os resultados obtidos que vão levar a que se questione seja o que for. Resultados estratosféricos, estes. Assim, antes que Raoul Weil desencadeie um raid sobre a clientela americana, o banco UBS tem à responsabilidade da sua gestão 931 mil milhões de francos, propriedade da sua clientela. No primeiro trimestre de 2004, o banco obteve uma captação de 164 mil milhões de francos suiços, ou seja, com um aumento de 20% num só ano. “Eu não vejo limites à progressão de UBS”, afirmava, nesse verão um Georges Gagnebin, conquistador.


 

E o UBS disponibiliza os meios. Como, por exemplo, esta bateria de conselheiros de apoio aos clientes, treinados para iludir a vigilância do fisco americano, o IRS, como o descreve uma apresentação do banco, de 26 de Setembro de 2006. Em 2003, havia já 32 destes conselheiros especiais – sediados em Zurique, Genebra e Lugano – mas ao que parece o UBS contava já com cerca de 60. Incluindo o americano Bradley Birkenfeld.


Ao longo desse ano, esses conselheiros passam um mês nos Estados Unidos, com quatro entrevistas por dia. No total, foram mais de 3800 clientes classificados como sendo “Não – W9” que foram assim visitados. Os assessores cultivam então a discrição, o silêncio, escondem aos homens das alfândegas americanas as verdadeiras razões para as suas viagens. Estão proibidos de ficarem duas vezes no mesmo hotel. Os computadores estão codificados e as transacções com os clientes são feitas na base de um código. Trata-se de verdadeiros pequenos James Bond. Às vezes, mesmo em calções curtos na passagem das alfândegas dos Estados Unidos, como disse, Bradley Birkenfeld à justiça do seu país. História de quem quer evitar ser visto com um ar de quem é banqueiro.


Sobre o mar, nos Alpes

 

Era assim que o banco geria a sua clientela mesmo nas barbas do fisco americano. Mas se ficavam por aqui. A UBS também forçava os seus clientes a colocarem ainda mais dinheiro nos seus cofres e continuava a procurar ainda mais clientes. Uma indústria criminosa que, de acordo com a justiça americana, florescia com eventos sociais, amplamente patrocinados pelo próprio estabelecimento bancário. Assim como o descreve um documento interno, quase trinta prestigiosos acontecimentos de vocação cultural ou desportivos foram apoiados para seduzir uma rica clientela.


Quais? Existem eventos de regatas para VIP’s do barco Alinghi VIP, vencedor em 2003 e 2007 do Campeonato da América. Como os que foram organizados em torno do troféu UBS em Newport em Junho de 2004, um duelo amigável entre a equipa americana da Oracle e a Alinghi, de que UBS é um dos principais patrocinadores enquanto que o armador, o magnata Ernesto Bertarelli, tem assento no Conselho de Administração do mesmo banco (2001-2009).


Desde o Verão de 2000, o banco UBS também financia e por vários milhões o Festival Verbier e a sua orquestra, composta por jovens músicos de música clássica. Filantropia? Em parte, apenas. Em Valais, o banco convida os seus clientes. Nos EUA, aquando de apresentações do conjunto, realiza um trabalho de divulgação. Não é, portanto, nenhuma surpresa encontrar aí Georges Gagnebin o responsável chefe da gestão de fortunas, como Presidente do Festival. Martin Liechti, integra, a Fundação da Orquestra do Festival de Verbier. E em 25 de Julho de 2000, o gerente da fortuna defende assim o seu investimento de empregador: “esta orquestra é a nossa ligação para o exterior e mostra que não nos sentimos confinados ao nosso território, nem às nossas tradições! É verdade que, a posteriori, o banco UBS tem quebrado um pouco os costumes helvéticos, pelo menos no domínio bancário.


O Conselho da Fundação da Orquestra Verbier contém outras surpresas. Especialmente o facto de ver na sua Presidência, desde 2004, Mark Branson, o chefe de divulgação de UBS e o grande promotor das deslocações do conjunto para tocar no estrangeiro. Um britânico que, entusiasmado, disse ao Financial Times de 23 de Julho de 2004: “o nosso objectivo é que o Festival da Orquestra Verbier patrocinado pelo UBS visite a sua cidade e que com este se trate então de um evento a não perder!” Os gestores de fortunas de UBS nunca faltaram a estas noites.

 

Do Conselho da Fundação da Orquestra Verbier vêm ainda outras surpresas. Especialmente a de ver agora Mark Branson,  responsável pela comunicação no banco UBS, a assumir desde 2004 a Presidência, ele que era um grande promotor desta Orquestra para as suas visitas ao estrangeiro,. Um britânico, entusiasmado, disse ao Financial Times de 23 de Julho de 2004: “o objectivo é que o UBS Verbier Orquestra Festival visite a sua cidade e que se venha a tratar de um evento a não perder!” Os gestores de fortunas de UBS nunca perderão estas noites.


A carreira de Mark Branson conhecerá ainda uma pequena passagem pelo vazio. Como nesse 17 de Julho de 2009, onde um pouco confuso e atrapalhado será enviado pela direcção de UBS a responder perante o Senado dos Estados Unidos para pedir desculpas em nome do próprio banco. Mark Branson dirige então o departamento de gestão de fortunas “offshore” de UBS. Uma posição que ele deixou a seguir. Durante seis dias, ele trabalhou no órgão de fiscalização dos mercados financeiros (Finma) onde é o responsável para vigiar todos os bancos da praça financeira. Uma muito bonita reconversão profissional.


Além-Atlântico, outros tiveram menos sorte. Doze meses de liberdade condicional, esta é a pena com que foi multado em 28 de Outubro de 2009, Steve Rubinstein, vendedor de iates instalado na Flórida. Uma primeira condenação para um ex-cliente da UBS. Graças aos gerentes do banco, ele escondeu 6,5 milhões de dólares ao fisco americano por meio de transacções nas Ilhas Virgens. O residente de Boca Raton, perto de Miami, via os seus banqueiros no local. Nos restaurantes, nos supermercados, mas também na feira de arte contemporânea Art Basel Miami Beach, como ele disse à justiça americana. Criada em 2002 e patrocinada pela UBS, como a sua grande irmã que se realiza anualmente em Junho na cidade renana, esta feira foi também usada pelos homens de Martin Liechti para pescar peixe graúdo tal como Steve Rubinstein. Em 15 de Dezembro de 2004, um repórter em Miami do austero Finanz und Wirtschaft mostra-se extasiado: “UBS faz uma grande jogada e convida um número a três dígitos de clientes!


Este grande jogo aqui, foi bem utilizado por um homem pelos corredores da Art Basel Miami Beach. Este homem chama-se Bradley Birkenfeld, o conselheiro americano cujo nome depois veio a percorrer o mundo. À medida em que a máquina UBS funcionava em pleno regime, à medida que o dinheiro levantado aumentava nos cofres de UBS, à medida em que os acordos QI e os regulamentos eram infringidos pelos gestores de fortunas que executam em solo americano milhares de transacções para os seus clientes, Bradley Birkenfeld aparece como sendo o grão de areia do sistema UBS.

 

(continua)

 

Leave a Reply