“A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor – por Álvaro José Ferreira

Graças à gravação pré-programada, posso dar-me ao luxo de ouvir os programas de rádio e televisão do meu interesse nos horários que mais me convêm. As minhas manhãs se sábado são por regra consagradas à audição de rádio, começando, cerca das 09:00, com o imperdível “Lugar ao Sul”, seguindo-se “A Vida dos Sons”, magazine histórico realizado por Ana Aranha e Iolanda Ferreira com base no arquivo sonoro da RDP (escrevo RDP porque faço questão de não deixar cair esta prestigiada marca no âmbito do casamento forçado e desigual com a RTP). Tenho acompanhado “A Vida dos Sons” desde o início (se bem me lembro, a primeira edição foi consagrada ao ano de 1921) e com muito interesse e proveito, devo acrescentar, em reconhecimento do trabalho realizado pelas autoras. No entanto, a edição de sábado passado (respeitante a 1968) e as seis ou sete precedentes tiveram o condão de me deixar com a sensação de alguma monotonia e enfado. E porquê? Porque os acontecimentos de natureza política e militar passaram a preencher, quase em exclusivo, cada edição, ficando a componente cultural reduzida a praticamente nada. Não acredito que tal esteja a acontecer devido a uma hipotética míngua de actividade cultural na década de 60. Em todos os anos desse decénio houve certamente muitos eventos culturais dignos de referência: lançamento de livros e discos, estreias de filmes e peças de teatro, exposições, actuação em Portugal de nomes míticos da música (erudita e popular), falecimento de figuras importantes das artes, letras e ciências, etc. A menos que tenham sido entretanto destruídos, existem no arquivo da RDP muitos registos de peças de teatro radiofónico, de obras de ficção adaptadas para rádio (que eram transmitidas em episódios) e de poesia, sem esquecer as centenas de entrevistas realizadas por Igrejas Caeiro e outros. Seria de todo o interesse que esses registos fossem resgatados, em tributo a tantos homens e mulheres que marcaram o seu tempo e que, em muitos casos, deixaram obra relevante para a posteridade. E nem sequer se pede que as gravações sejam exactamente coetâneas ao evento a assinalar. Um exemplo: em 1968 (apenas para citar o ano respeitante à edição de sábado passado), saiu o romance “O Delfim”, de José Cardoso Pires.

 

Seria perfeitamente lógico que se resgatasse o excerto de uma entrevista em que o escritor tivesse falado do livro (ainda que gravada muitos mais tarde) e, em complemento, caso exista, uma passagem da adaptação radiofónica da obra, mesmo que tendo sido feita nos anos 80 ou 90. E assim ficava devidamente assinalada a edição de um dos mais notáveis frescos literários do Portugal marialva que esteava o salazarismo. Outro exemplo, também relativo a 1968: a edição do belíssimo álbum “Cantares do Andarilho”, de José Afonso. Para a assinalar, bastaria transmitir o excerto de uma entrevista feita ao cantautor em que ele se tivesse referido ao disco, seguida de uma das respectivas canções (talvez “Vejam Bem”, visto ter-se tornado uma espécie de hino de resistência à ditadura).

 

As autoras do programa poderão alegar que nos 50 minutos que têm à sua disposição não dá para meter muito mais do que a vertente política e militar. Nesse caso, que se faça duas edições para cada ano. A exemplo, aliás, do que chegou a ser feito –e bem – no ano de 1961 e também em determinados anos das décadas de 30, 40 e 50. É que havendo um fabuloso acervo de fonogramas de cariz cultural no arquivo da RDP, penso que constitui uma falha grave eles não serem contemplados num programa que visa – presumivelmente – dar uma panorâmica abrangente do que aconteceu no país e no mundo desde que há registo áudio e que, por acaso, se chama “A Vida dos Sons”. Afinal de contas, tais sons também têm vida: bem mais, aliás, do que boa parte dos discursos e declarações de políticos e chefes militares… Entre um inócuo discurso de Américo Thomaz ou um qualquer apontamento de reportagem laudatório de Oliveira Salazar ou apologético da Guerra Colonial e uma peça de Bernardo Santareno, uma adaptação de um conto de José Rodrigues Miguéis, ou um poema dito por João Villaret, Mário Viegas ou Carmen Dolores, eu não tenho a mais pequena dúvida acerca de quais mais satisfação e enriquecimento espiritual me proporcionam.

 

Em suma: deseja-se que “A Vida dos Sons” seja menos cinzenta e mais multicolor.

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