Tentarei escrever sobre João dos Santos (1913-1987) numa forma semelhante à que foi utilizada para os outros pedagogos e só irei focar as suas ideias e intervenções relativas a este aspecto. Nasceu numa família de ideais
republicanos, opositores do regime do Estado Novo, tendo assistido, desde crianças a reuniões políticas que marcaram o seu perfil de democrata. Tirou o curso da escola Superior de Educação Física e deu aulas gratuitas a crianças de bairros pobres de Alfama. Referiu várias vezes a importância da obra de Faria de Vasconcelos e de Viana de Lemos, introdutor das ideias de Freinet. Tirou o curso de Medicina entre 1934 e 39. Em 1940 fez, sob a orientação de Vitor Fontes, a especialização em psiquiatria infantil, no Instituto Aurélio da Costa Ferreira e em 1944 organizou de forma inovadora os pavilhões da secção infantil do Hospital Júlio de Matos.
Em Outubro de 1945, participou numa reunião do Movimento de Unidade Democrática, para pedir eleições livres o que levou a que, passados meses tivesse sido demitido das suas funções no hospital onde trabalhava. Ficando desempregado, foi trabalhar para França, com o estatuto de funcionário público, sob a orientação de Henri Wallon, onde se manteve durante 4 anos. No ano seguinte iniciou a sua análise didáctica na Sociedade Psicanalítica de Paris, fazendo supervisão com Marie Bonaparte.
Em 1952 fundou os dois primeiros Centros Psicopedagógicos em Portugal: no Colégio Moderno e na “Voz do Operário “ com a ideia de ajudar os professores a resolver dificuldades apresentadas por certas crianças mas também de encetar um diálogo com os pais “(1983) . Frisava ele: “A tarefa do centro é a de descobrir nas crianças das nossas escolas, aquelas que sofram de pequenas perturbações que possam ser facilmente corrigidas, antes que se desenvolvam de forma irremediável “( Jornal “A Voz do Operário, 1952). Vemos, aqui, uma preocupação sempre subjacente à sua obra, a ligação entre Educação e Saúde Mental. Em 1954 foi criado o Colégio Claparède, de que foi membro fundador.
Entre 1954 e 1958 foi professor de Psicologia Infantil nas Escolas de Jardineiras dos Jardins Escolas João de Deus, professor de psiquiatria na Escola de Enfermagem Artur Ravara e na Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha. De 1978 a 82 foi encarregado do Curso de Psicopatologia Dinâmica da nova Faculdade de psicologia e Ciências de Educação da Universidade de Lisboa.
“A educação foi desde a pré-história uma tarefa colectiva das comunidades… com base num “fazer e mostrar a fazer”, o que origina os modelos educativos. Os modelos actuais são cada vez mais teóricos e abstractamente teóricos. São de falar alto e mal “. E ainda: “A educação ou é transmissão do modelo que existe em cada um de nós ou não é educação” – 1978 (Ensaios de Educação II,pp22)
Sob o seu impulso, surgiram: a Liga Portuguesa dos Deficientes Motores, a Associação Portuguesa dos Surdos, a Liga Portuguesa de Higiene mental, o Centro Hellen Keller, a Associação de Educação pela Arte e a Liga Portuguesa Contra a Epilepsia.
Gostava de dizer que “Ninguém ensina nada a ninguém, as pessoas é que aprendem” (1988). Considerava que a escola só atingirá os seus objectivos quando for para todos, isto é, quando a educação se não fizer apenas nos edifícios escolares, mas no meio familiar e em todos os locais onde as crianças se movem.
“ A escola é uma realidade inevitável mas é preciso integrá-la numa sociedade criativa e não condicionante para o consumo supérfluo, de forma que aprendizagem se possa fazer não só nos edifícios escolares mas também nas casas e nas praças públicas, nos campos e nas praças”- 1978(EE II:49)
Emílio Salgueiro, seu discípulo, frisa as suas “histórias de exemplo e de saber”, permeadas por um vivo sentido de humor, o que formava o cerne do seu magistério informal. No seu ensino mais formalizado, procurava estar sempre próximo da prática clínica, mãe de todo o saber, desconfiando da erudição livresca que baseia a teoria em teorias anteriores, e não numa prática vivida”. António Coimbra de Matos, psicanalista, disse: (João dos Santos) “Tinha uma grande qualidade. Era bom professor, expunha com clareza. Foi um autêntico pedagogo. Tinha prazer em transmitir conhecimento”.





Acho imprescindível ler os livros de João dos Santos sobre psicologia infantil. Tenho alguns que me encantaram quando os li há muitos anos como, por exemplo, aquele “Se não sabe porque é que pergunta?”