A CANETA MÁGICA – Vivemos tempos dfíceis – por Carlos Loures

(adaptação de texto publicado no Estrolabio)

Hard Times,1854, um livro onde Dickens aborda a dureza da vida numa época dominada por um industrialismo que privilegiava a máquina em detrimento do ser humano. O capitalismo mostrava os dentes e as garras. Mulheres grávidas e crianças trabalhavam nas fábricas por salários de fome. Os trabalhadores viviam em tugúrios, alimentavam-se mal, morriam cedo.

 

Também hoje se vivem tempos muito difíceis – a austeridade imposta aos mais vulneráveis pel corja de gente insensível, estúpida e desonesta que se guindou ao poder, está a destruir o frágil equilíbrio das famílias, o desemprego aumenta de uma forma assustadora; com a supressão dos subsídios de Natal e de férias, com o aumento dos impostos e dos preços, mesmo os que trabalham ou recebem pensões, viram os seus frágeis orçamentos drasticamente reduzidos. Os jovens, mesmo que possuam diplomas do ensino superior, cada vez mais têm dificuldade de aceder ao primeiro emprego… Tempos muito difíceis, de facto. Particularmente difíceis? Sim, se os avaliarmos relativamente às últimas duas ou três décadas.

Fernão Lopes na Crónica de D. João I, referindo-se à grande crise de 1383-85, clama – «Ó geração que depois veio, povo bem-aventurado que não soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de tais padecimentos!». E no entanto, vinte anos depois, embora sem o sofrimento provocado pelo cerco castelhano, com as máquinas de guerra expelindo os seus projécteis sobre Lisboa, incendiando ruas inteiras, não se pode dizer que tenham sido tempos felizes. Houve, de facto, um período de paz relativa, com escaramuças e pilhagens de ambos os lados da fronteira entre 1396 e 1402. Mas a guerra com Castela reacendeu-se – mais sofrimento, mortes. Tempos difíceis de novo.

Nasci quando o incêndio da Guerra Civil lavrava para lá das nossas fronteiras e depois foi continuada pela II Guerra Mundial e lembro-me das manobras de black out, com a cidade mergulhada na escuridão e os céus varridos pelos focos de projectores; recordo as janelas cobertas de fita adesiva (para evitar estilhaços em caso de bombardeamento), Sobretudo, recordo as cadernetas de racionamento, carimbadas na Junta de Freguesia, e do ar preocupado da minha mãe, tentando fazer milagres para alimentar o nosso pequeno agregado. Lembro-me de ouvir o meu pai gritar indignado contra os que se aproveitavam das carências gerais para enriquecer, vendendo géneros e produtos no mercado negro.

Lembro-me da penúria que só não afectava os muito ricos. Os pobres viviam muito mal. Os «remediados», versão indígena da «classe média» patinhavam em dificuldades e em esforços para manter o estatuto. Havia uma faixa intermédia – a «pobreza envergonhada»: gente pobre, mas que pretendia passar por remediada. Um funcionário público (nosso familiar afastado) homem que trabalhava num ministério do Terreiro do Paço, vinha a pé de Queluz até ao centro de Lisboa, por não ter dinheiro para o comboio ou camioneta – tinha um enorme rancho de filhos e o ordenado nem a meio do mês chegava. Engravatado, fato de três peças, chapéu de feltro, e aí vinha ele, saindo de madrugada para poder estar a horas no serviço. Criara-se, portanto, uma ampla paleta de eufemismos para uma expressão simples – miséria.

Havia os ricos. Algumas fortuna feitas no caldo social da miséria generalizada. Uns ostentavam a riqueza sem quaisquer pruridos. E havia alguma «riqueza envergonhada» – pessoas ricas, mas que pretendiam passar também por remediados. Razões várias – vergonha de comer bem quando tanta gente passava fome; evitar ter todos os dias à porta um cortejo de pedintes… Tempos difíceis.

A Guerra Colonial veio juntar a todos os outros flagelos económicos o temor pelas vidas dos jovens combatentes. Todas as famílias tinham familiares nas Forças Armadas. Tempos difíceis.

Vivemos actualmente tempos muito difíceis…

Porém, indigna ouvir dizer que há quarenta anos atrás, durante a ditadura, se vivia melhor. É um insulto para quem viveu nessa época, comparar as dificuldades actuais com as desses tempos. E nem me vou dar ao trabalho de fazer a comparação.l. Quem sabe como se vivia, compreende o que quero dizer, quem não sabe, por não querer saber, ou não se querer lembrar, não merece o esforço de uma explicação.

Tempos difíceis os de hoje. Não nos devemos resignar e devemos lutar por que sejam menos difíceis. Exigindo justiça – voltando a Fernão Lopes, ele considerava que a Justiça continha em si todas as outras virtudes. Lutemos, pois, pela Justiça. Que se saiba, no entanto, que ela nunca reinou. Sempre os poderosos a manipularam de modo a que os tempos sejam difíceis para quem não tem poder.

Agora, como há mil anos.

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