A revista “Nova Síntese”, órgão da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, nasceu programaticamente com o objectivo, entre outros, de «incentivar a renovação dos estudos sobre o neo-realismo e o seu contexto mais amplo através da publicação de trabalhos de estudiosos portugueses e estrangeiros» (nº. 1, 2006). É um projecto que tem vindo a desenvolver-se com os vários números monográficos da revista, incluindo o último volume (nº. 6), que acaba de ser apresentado no Museu do Neo-Realismo e que publica todas as comunicações feitas no Congresso Internacional “Manuel da Fonseca – Por todas as estradas do mundo”, realizado em Outubro de 2011 na Faculdade de Letras de Lisboa, no Museu, e no Auditório António Chaínho de Santiago do Cacém, por ocasião do centanário do nascimento do Autor.
Manuel da Fonseca (1911-1993) é, como se sabe, um nome maior do neo-realismo literário português, movimento que floresceu desde a década de 30 à de 70 do século XX (de Ferreira de Castro a José Saramago) num contexto sócio-cultural e político específico, o que implica a sua ligação a uma cultura da “resistência” à ditadura. Nas dezassete comunicações e conferências inscritas agora nas 226 páginas do volume, a obra do Autor é estudada sob diversas perspectivas, as quais conduzem inevitavelmente à problematização da função estético-ideológica, quer se trate da poesia, dos contos e dos romances, sem esquecer a sua ligação ao cinema (David Santos, “Escritor, argumentista e actor”) e às artes plásticas (Luísa Duarte Santos, “A visualidade em Manuel da Fonseca”), aspectos estes talvez menos estudados quando se considera a obra na sua globalidade.
Como sucede sempre, os congressos têm a vantagem de recuperar a crítica produzida precedentemente (e aqui ganha vulto o “prefácio” de Mário Dionísio para a 2ª. edição dos “Poemas Completos”), tentando uma exegese a partir de novas abordagens do corpus textual. Deste modo, assinalam-se alguns contributos apreciáveis sobre a obra poética: Manuel Simões, “A voz transgressiva”; Fernando J. B. Martinho, “Manuel da Fonseca no contexto da poesia novecentista portuguesa”; ou Manuel Gusmão, “A poesia de M. da F. e o Alentejo”, por exemplo.
E já sobre a obra em prosa, é de salientar o estudo mais abrangente de Vítor Viçoso (“As raízes do lugar, a memória e a errância na obra de Manuel da Fonseca”) e sem dúvida o contributo de Fernando Guimarães (“Leituras do Neo-Realismo”) e de Carina Infante do Carmo (“Manuel da Fonseca e a escrita da violência”), sem esquecer a comunicação de Cristina Almeida Ribeiro, que estudou os contos do autor (“Brevidade e intensidade na contística de Manuel da Fonseca”).
Todos os ensaios assumiram metodologicamente uma perspectiva comparatista, estudando as ressonâncias de Fialho de Almeida ou de García Lorca e, mais especificamente, a homologia entre a narrativa do Autor e os romances rurais italianos dos anos 30 e 40 (José Manuel de Vasconcelos). Não custa, por isso, subscrever a declaração das organizadoras, Carina Infante do Carmo e Violante F. Magalhães, quando afirmam ao concluir a sua nota introdutória: « Acreditamos que, com estes textos, se renovam e enriquecem as leituras críticas sobre a obra, em prosa e poesia, de Manuel da Fonseca».

