Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
8. Tempestade Espanhola (Acto II, Cena 1)
Arnaud Parienty
Se devemos acreditar nos jornais franceses, a Espanha irá receber da Europa, uma ajuda na ordem dos mil milhões de euros para salvar os seus bancos, afectados pela crise imobiliária. Este é mais um plano de ajuda, nada mais. Quem vai dar esse dinheiro? Em que forma? A quem? Em que condições? Com que consequências? O que pensa o governo francês? Ler jornais ou ouvir rádio em França torna muito difícil responder a estas perguntas óbvias. Passam-se, porém, algumas coisas interessantes. Tomemos então os pontos essenciais.
De onde vem o dinheiro?
Esta é a questão mais evidente. Francamente, depois de ler muito sobre o assunto, ainda não é claro para mim. Logicamente, o dinheiro deve vir do FEEF. Mas os seus compromissos anteriores e as promessas ligadas aos planos de resgate irlandês, português e grego representam mais de 300 mil milhões, o que excede as capacidades do Fundo. Esta é uma das razões para a criação do MEE. Este tem maior dimensão. Mas este ainda não existe, uma vez que não foi ratificado pelo Parlamento alemão. Ora, a Alemanha opõe-se ao MEE a que o MEE possa directamente em apoio dos bancos em dificuldade. Isso significa que a posição alemã mudou? Isto teria uma certa importância.
De onde vem o dinheiro?
Claro, o dinheiro também pode vir do FMI. Mas isso implicaria uma forma de tutela que Rajoy quis evitar a todo o custo. Ele, portanto, rejeitou a intervenção do FMI. O dinheiro poderia finalmente vir do BCE, mas o BCE não está, certamente, pronto para vir ajudar os bancos espanhóis sem garantia. Até porque alguns desses bancos poderão muito bem desaparecer e até mesmo muito rapidamente.
Quem recebe o dinheiro?
O dinheiro é um empréstimo a taxa preferencial concedido ao FROB, que é um o Fundo para a reestruturação dos bancos de Espanha. . O “O” significa “ordenado”, a mostrar como os espanhóis sabem como manter um certo sentido de humor apesar das circunstâncias. O FROB é uma estrutura pública , sob o controle do Parlamento, do Governo e do Tribunal de Contas. Este Fundo recebe a garantia do Estado espanhol. Portanto, a dívida FROB acrescenta –se à dívida pública espanhola … que vem assim de aumentar cerca de 10 pontos percentuais do PIB, aproximadamente.
Em contrapartida dessa taxa preferencial, o crédito europeu concedido será prioritário, tal como os outros fundos públicos, sobre títulos do governo comuns, em caso de incumprimento. Como vimos no caso grego, esta distinção entre credores públicos e privados tem como efeito o aumento da taxa de incumprimento sobre a dívida que é devida aos credores privados em caso de existência de problemas para pagamento.
A soma destas duas informações significa que as taxas de juros pedidas para comprar dívida pública espanhola vão aumentar. Será particularmente interessante ver como os mercados vão reagir. Inicialmente, é possível que o alívio de ver afastada a crise bancária espanhola supere todas as outras considerações. A longo prazo, o acesso aos mercados de Espanha vai complicar-se seriamente.
Em que condições esse empréstimo é concedido?
Quase nenhuma! Portanto, a Espanha está a ser nitidamente muito melhor tratada do que a Irlanda, por exemplo, que recebeu um resgate da Troika em troca de um plano de austeridade particularmente duro (e ineficaz, é claro). Resultado: Irlanda pede uma renegociação do seu resgate. Para a Grécia, o plano espanhol é um convite para votar SYRIZA no próximo domingo, uma vez que ele mostra que a firmeza e a recusa em aceitar as condições europeias obrigou os europeus a aceitar emprestar sem condições. Por analogia com a época da Guerra Fria, os americanos chamam a este jogo o MAD (mutually assured depression – depressão mutuamente assegurada), e sabemos que a dissuasão funciona principalmente nos fracos para com os fortes.
O governo espanhol obteve pois este dinheiro sem condições, o que é uma vitória política. Não se pode porém dizer que ele ganhou totalmente . Primeiro, porque ele alegou não precisar de ajuda europeia ainda há três dias. Em seguida, porque ele queria uma ajuda directa para os bancos, que lhe teria permitido não aumentar a dívida soberana do país. Dado o estado dos bancos espanhóis, a recusa europeia era previsível.,
Que consequências?
O resgate espanhol estabeleceu um precedente. Ele representa mais uma mudança de método. É uma resposta para aqueles que pensavam que toda a gente já só andavaà procura de recuperar o que era seu . Os contribuintes franceses terão eles percebido que acabaram de emprestar 25 mil milhões ao FROB? Difícil de se saber. De toda a maneira, a solidariedade europeia está aí. Mas havia uma alternativa?
Este plano pode ser lido de várias maneiras. Uma leitura pessimista consiste em confrontar as somas envolvidas com as capacidades disponível (MEE, o que não é também claro). A conclusão? Este plano é o último antes que a capacidade de concessão de empréstimos fiquem submersas pelas dívidas. A pressão sobre a Itália será máxima. Mario Monti sentiu-o muito bem , tentando criar um eixo com François Hollande, para se recuperar a ideia de crescimento. Mas o par Holanda (“sim” ao Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia) – Fabius (“não” ao Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia) nem sempre respondeu às propostas que eram provenientes de todos os lados.
Arnaud Parienty, Tempête espagnole (Acte II, scène 1), 10 de Junho, Alternatives Economiques e disponível em: alternatives-economiques.fr/blogs/parienty
