Mesmo que tenhamos conseguido atingir um estado de serenidade através de exercícios de yoga, dos conselhos da igreja maná, de fármacos ou de outra qualquer maneira, basta abrirmos as páginas de um jornal, ligarmos a televisão num canal noticioso ou acedido pela Internet à actualização da informação, para que o efeito de apaziguamento, conseguido com esforço de auto-sugestão ou com ajuda química, se esvaia. Não há xanax nem palavra divina que resistam.
Entre Pedro Passos Coelho e António José Seguro prossegue um campeonato de banalidades, verdades de La Palisse, tautologias. Também não ajudam as declarações manhosas de Cavaco ou a indignação inexplicável de um Mário Soares que há mais de três décadas abriu uma caixa de Pandora. Esconjurando os fantasmas do estalinismo, chamou em seu auxílio o tal socialismo de rosto humano que redundou em capitalismo selvagem. O rosto humano logo apareceu nos assaltos às sedes dos partidos de esquerda, com a rede bombista e hoje se consubstancia neste grupo de jovens ignorantes formados pela Jota que alegremente rasga a Constituição votada em 1976 e dança em cima da campa dos direitos dos trabalhadores. Percebemos tudo, menos a sua surpresa.
Mergulhados numa lixeira de corrupção, por onde rastejam as sub-reptícias ratazanas do costume, recorremos mais uma vez à realidade alternativa das efemérides – Hoje Salgueiro Maia completaria 68 anos. Num tempo em que gente sem vergonha e sem honra, campeia por todos os sectores da vida nacional, é gratificante recordar um homem de uma grande honestidade, de uma verticalidade exemplar. E queremos recordá-lo através dos versos de Sophia – Aquele que na hora da vitória respeitou o vencido Aquele que deu tudo e não pediu a paga Aquele que na hora da ganância Perdeu o apetite Aquele que amou os outros e por isso Não colaborou com a sua ignorância ou vício Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»como antes dele mas também por ele Pessoa disse.
Honra à memória de Salgueiro Maia!

