Quando há cerimónias relevantes na Região Autónoma da Madeira, já se sabe, há espectáculo. Não o espectáculo solene que a dignidade das instituições recomenda e que o significado da data justifica, mas o espectáculo grotesco, a provocação insólita, aquilo a que vulgarmente se chama de “palhaçada”. Estas encenações, que se tornaram rotineiras, têm normalmente dois actores principais, Alberto João Jardim e José Manuel Coelho, que se confrontam politicamente, mas que também disputam protagonismo.
Já aqui, no GDH de 5 de Março, manifestei a minha crítica em relação à forma cúmplice e comprometida como os órgãos de soberania nacionais, Presidente da República e Governo, ignoram, cobrem ou desculpam, a situação anormal que se vive na Região Autónoma da Madeira, os sistemáticos atropelos ao funcionamento dos órgãos democráticos, os atentados à liberdade de informação, o compadrio e nepotismo na gestão do património público por parte do Governo Regional. Cumplicidade que não vem apenas dos seus correligionários partidários. Todos ouvimos, perplexos, o então presidente da Assembleia da República Jaime Gama, em visita ao Funchal, tecer rasgados encómios ao exemplar funcionamento da democracia na Madeira. Dá que pensar…
Ontem comemorou-se o Dia da Madeira. O espectáculo repetiu-se. A dois níveis. Em sessão da Assembleia Legislativa lá vimos o deputado regional José Miguel Coelho a ser transportado “de charola”, enquanto berrava e esperneava, para o exterior, uma vez que fora expulso do recinto. O deputado queria usar da palavra, o que não é coisa recomendável no circo da Madeira.
Entretanto noutro local, o protagonista rival também montava o seu show. Com as poses e fraseologia costumeira, lá voltava à argumentação habitual, o défice de autonomia, a dívida do continente para com a região, o centralismo de Lisboa, a opressão continental ao povo madeirense. E repunha a ameaça de um referendo.
Pois bem, penso que é chegada a altura de tomar isto a sério e de deixar de o encarar como uma anedota. Creio que sim, que é altura de um referendo sobre o estatuto da Madeira. Até porque todos os portugueses e não só os madeirenses estamos a pagar um preço elevado pelas palhaçadas de Alberto João Jardim. Palhaçadas que muitas vezes são dolosas.
Creio que é altura de perguntar aos portugueses, incluindo obviamente os madeirenses, o que querem. Independência, sim ou não?
A resposta dos portugueses, a resposta em particular dos madeirenses, poderá ser a forma de calar definitivamente esse demagogo barato que se chama Alberto João Jardim.
Tenho bons amigos da Madeira. Tenho mesmo familiar muito chegado que tem também raízes em família muito digna e muito ilustre, por boas razões, da Madeira. Não confundo a “clique jardinista” com o povo madeirense. O referendo poderá ser a forma de eles, e nós, nos libertarmos de mal-entendidos, da chantagem a que estamos sujeitos há trinta anos. Não tenho dúvidas, anuncie-se a intenção de avançar com o referendo e logo veremos o “corajoso” Jardim a dar com os calcanhares no rabo e a fugir a sete pernas dos fantasmas que ele próprio criou.
É altura. Referendo já! Para que fique definitivamente provado que a Madeira é um jardim, mas que a Madeira não é o Jardim.
2 de Julho 2012

