EM COMBATE – 109 – por José Brandão

 

BAPTISMO DE FOGO DO 3º PELOTÃO DA CArt 1688.

 

Era uma hora e trinta minutos da manhã do dia 18 de Maio daquele ano de 1967, quando nos levantámos da cama, tomámos o pequeno-almoço e após os últimos preparativos, largámos em viaturas militares, devidamente escoltados, pelas três horas rumámos a João Landim..

 

Ali chegados, embarcámos em LDM dos Fuzileiros e lá fomos Rio Mansoa fora em direcção ao interior, mais propriamente para lá de Encheia.

 

Eram três pelotões reforçados; o nosso (periquito) e dois pelotões da CCaç 1496.

 

A viagem durou cerca de 4 horas, tendo alguns de nós aproveitado para dormitar.

 

Pelas 7 horas e 20 minutos, alcançámos Envcheia e passados cerca de 15 a 20 minutos, ancorámos em local previamente escolhido pelas chefias.

 

Logo após o desembarque, organizámos a coluna; à frente seguiam os dois grupos de combate da Companhia de Caçadores 1496, na cauda seguia o nosso grupo.

 

Atravessámos uma bolanha, ultrapassámos uma tabanca (conjunto de várias palhotas) cujos olhares da população não nos mereciam a mínima confiança. Passámos ainda por uma outra bolanha, outra tabanca ainda e eis-nos num terreno, pouco arborizado em árvores de grande porte, mas com bastantes arbustos pequenos. Ao fundo, avistou-se uma mata mais cerrada a cerca de uns 600 metros.

 

 

De repente, à esquerda e longe, ouve-se um tiro e o estrondo de uma bazucada.

 

Olhei para trás e disse ao Furriel Neto, que estava próximo – para ali a coisa já começou.

 

Mal tinha acabado de falar e dado meia dúzia de passos, ouve-se à nossa frente e da mata um tiro seguido de uma rajada.

 

Imediatamente os nossos soldados se atiraram para o chão e cada qual procurou o melhor abrigo. Encontrei-me atrás de um pequeno arbusto e arrisquei correndo para trás de uma pequena árvore, aparentemente oferecendo melhor abrigo.

 

O potencial de fogo era mais sobre a nossa direita, mas mesmo assim o condutor da minha secção, abrigado à minha direita, sentiu e eu próprio testemunhei os efeitos de uma bala ao cravar-se no solo alguns metros à nossa frente.

 

Ouvia-se com bastante intensidade o silvo de balas a atravessar o ar.

 

Naqueles momentos de aflição, tudo nos ocorre e mentiria aquele que dissesse que nunca sentiu receio ou medo nestas circunstâncias.

 

A seguir ao tiroteio, efectuou-se a batida. De seguida, novamente em coluna, passou-se a incendiar todas as palhotas que se encontraram abandonadas de pessoal nativo. Foram todo cerca de 100 palhotas.

 

Fiquei verdadeiramente abismado, quando verifiquei que os “velhos” passaram a retirar das palhotas objectos para uso pessoal, tais como roupas, catanas, pequenos utensílios, galinhas, cabritos e muitas outras coisas.

 

Isto passou-se em Late nas franjas do Queré.

 

Por volta das 14 horas e debaixo de um sol infernal alcançámos o Rio Mansoa onde as LDMs nos esperavam para o regresso a João Landim e consequentemente, a Bula.

 

Este nosso patrulhamento pelo lado do Rio Mansoa, inseriu-se numa operação mais alargada que incluiu A CArt 1525 a 1 grupo de Combate, Os Falcões de Bissorã, 1 Grupo de Milícias, Policia Administrativa de Bissorã e CCaç 1612 a 2 grupos de Combate.

 

Pelo nosso lado a operação designou-se BRIGÃO pelo outro lado (Bissorã) foi designada por BATE QUE BATE.

 

O comportamento dos velhos contagiou alguns maçaricos do nosso pelotão e recordo-me de ver o sargento Vieira, que também participou nesta operação, arrastar um vitelo, desde as palhotas de Late, até muito próximo do rio. Como estava exausto, devido à caminhada, ao esforço, ao calor e à sua idade, e porque tinha que se esforçar ainda por subir um pequeno morro, acabou por desistir e soltar o vitelo. Mal sabia ele que ultrapassado o morro, esperavam-nos os fuzileiros a escassas dezenas de metros.

 

Chegámos a Bula pelas 20 horas.

 

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