GÁRGULA – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 O velho estava bêbedo. Mas não era dos pegajosos, gostei da sua conversa, ouvi:
 
          – Tudo na vida me foi saindo às avessas. Percebes?
 
          – Mais ou menos.
 
          – Amanhã será concluída a obra que virá aferir aquilo que somos hoje. Pagas-me um copo?
 

Paguei. Bebeu e continuou:
 
          –
          – Mas as pedras para a obra só ontem começaram a ser talhadas. A mim falhou-me o golpe, resvalou-me o escopro.
 
Braço esquerdo no balcão e nele apoiou a cabeça. Tremia. Talvez estivesse a soluçar. Dei-lhe uma palmada nas costas.
 
          – Então o que é isso? Vá lá. Anima-te!
 
 Animou-se.
 
          – Tenho que tornear a pedra de outra  forma. Percebes?
 
          – Mais ou menos…

          – Quisera eu arrancar-lhe florescência, mas segui as indicações que me deram, monstro, quimera, gárgula
me foi saindo.. Que idade tens?
 
          – Vinte
 
          – E estás disposto a aturar um velho?
 
          – Estou a gostar da tua conversa.
 
          – E eu estou a gostar de ti, não te vergas aos mais velhos, vais longe!
 
          – Conta mas é a história da gárgula.
 
          – Já conto. Pagas-me outro?
 
Paguei. Bebeu, enredou:
 
          – Tentaram confortar-me o desconforto. Disseram-me: esta é a pedra real, a que existe, dura, cheia de veios. Sê contente pois de pedra assim não se espera outra coisa…
 
Exaltou-se, segurou-me pelas bandas do blusão, sacudiu-me.
 
          – Tenho vergonha de tal arte, desamada, desalmada. Percebes? Tenho vergonha não da arte que não é, mas daqueles ditos artistas que mestres meus disseram ser.  Não dos mestres que não eram, mas dos falsos,
dos falhos que por mestres queriam passar. Não talho, eu disse, talhar gárgulas eu  não talho! E baixei as mãos, baixei os braços.
 
Ficou uns instantes em silêncio.
Depois foi à casa de banho. No regresso veio às bordadas, mas lá conseguiu fundear junto ao balcão. Prosseguiu:
 
          – Antes a pedra em bruto… Estás a ouvir? Antes a pedra em bruto do que tosca arte a desprezá-la, a desprendá-la.
Embora tarde, agora eu peso cada pedra e experimento-lhe a dureza. Já estou velho, mas segurar eu não consigo as minhas mãos. Percebes?
 
          – Sim. Termina!
 
          – Envergonhado das malas-artes, cada qual no seu canto,, pedreiros livres como eu, há muitos. Há que juntá-los, há que juntar-nos. Só nós podemos dar caça aos patos-bravos, aos esmoleiros da traça, aos chulos das ideias. Só nós podemos e haveremos de lançar outras colunas de outros Jerónimos, e tudo a céu aberto. A abobada será convosco, filhos nossos que fizemos, perenidade!
 
Agarrou-se a mim, a chorar. Quando consegui acalmá-lo, perguntei-lhe:
 
          – Mas afinal qual é a tua profissão? Arquiteto? Escultor? Pedreiro?
 
Sorriu, pousou a mão no meu ombro.
 
          – Filho, eu fui um profissional da revolução. Mas agora estou na reforma, agora sou comunista forro. Pagas outro?
 
Paguei.
 
 

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