Subscrevi o Manifesto do Movimento Sem Emprego.

(conclusão)

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A declaração de Lord Eatwell na Câmara dos Lordes, 25 de Abril de 2012 – II

 

 

No gráfico acima, estima-se que o output gap no quarto trimestre de 2011 foi de (‑2,5)  por cento do PIB, com exclusão do petróleo, e será de (‑0,4) por cento em 2016-17. A estimativa do output gap no final  de 2011 é ligeiramente mais  reduzida do que  em Novembro.

 

 

A essência da poderosa análise do relatório de OBR contra a política de austeridade do governo é o ponto de partida de um estudo sobre a eficácia da política de estímulos orçamentais apresentado pelo Professor Larry Summers, da Universidade de Harvard, Antigo Secretário  de Estado do Tesouro americano. Num importante documento, em co-autoria com o Professor DeLong, da Universidade da Califórnia, Berkeley, apresentado pela  Brookings Institution, um dia antes do Chanceler ter apresentado  o seu orçamento, o Professor Summers fornece  estimativas empíricas sobre o impacto a longo prazo provocado quer pela  austeridade quer alternativamente pelas  políticas de estímulos orçamentais. Summers demonstrou que nas condições atuais de depressão económica uma expansão orçamental ir-se-ia pagar por si mesma, aumentando o PIB  potencial permanente e OBR sublinha  que iria gerar maiores receitas a longo prazo para o governo. Como Summers afirma:

 

“” as políticas orçamentais de caracter  temporário também irão mesmo reduzir os encargos de financiamento da dívida de longo prazo”.  

      

O que é  que aconteceria se o governo fosse capaz de assumir  a política expansionista proposta por Summers e passasse a aplicar ” políticas fiscais expansionistas de caracter  temporário ” que se autofinanciam a longo  prazo? De onde é que viria o dinheiro para pagar essas tais políticas hoje?

 

 

 

Felizmente, o chanceler deu a resposta. Se o país pode ter recursos para emprestar 10 mil milhões de libras ao FMI, então pode ter recursos para aplicar 10 mil milhões  num banco nacional destinado á criação de  infra-estruturas para atacar directamente o declínio da capacidade produtiva (PIB potencial) provocado pelas políticas de austeridade. Osborne disse que o empréstimo concedido ao FMI viria das reservas do Reino Unido, e estas não são dinheiro que estaria disponível para os gastos públicos, e que não se iria aumentar a dívida nacional. Tudo bem, mas vamos utilizar o truque novamente, mas desta vez para o utilizar com fins caseiros.

 

 

No entanto, poder-se-ia, então, argumentar que as agências de rating a quem o  chanceler promete regularmente fidelidade e os mercados  obrigacionistas podem não ficar  convencidos pelos argumentos de Summers e que daí  resultaria uma perda de confiança na Grã-Bretanha com efeitos de contágio sobre as taxas de juros. Summers presume que não há aumento nos prémios de risco, ou seja, presume, como o resultado desta hipótese, de que não há nenhum aumento nas taxas de juros. O seu ponto de partida é que a expansão da economia seria  auto‑financiada  e, portanto, admitir uma qualquer variação no prémio de risco  seria irracional. No entanto, talvez seja demais esperar qualquer comportamento racional dos amigos de Osborne e das suas agências de rating. Depois de tudo o que se passou, são os palhaços que nos dizem que a titularização das hipotecas subprime é  tão segura  quanto o tio Sam.  Como podemos proteger a Grã-Bretanha da sua irracionalidade? Posso oferecer duas propostas que foram apanhadas no ar, algures?

 

 

Primeiro, tem-se sugerido nos Estados Unidos que as políticas de austeridade assentes  nos cortes na despesa pública ou no aumento dos  impostos, deveria  estar condicionada à economia  ter atingido ou não  metas pré-definidas em termos de crescimento e / ou  de emprego. A legislação deveria obrigar o governo a assumir  o compromisso de reduzir o défice quando a meta de crescimento tenha sido já alcançada. A possível e potencial falha da presente proposta é óbvia. Os cortes na despesa pública podem sufocar uma recuperação antes de esta se ter verdadeiramente estabelecido, fixado. Mas pelo menos a ideia da redução contingente do défice permite algum alívio face à  pressão exercida pela austeridade.

 

 

Em segundo lugar, o facto de o défice de 2010 ter sido um défice  sem precedentes deveria obrigar-nos a alguma reflexão. A austeridade imposta pela coligação poderia eventualmente ter sido  apropriada  se estivéssemos a enfrentar  normais oscilações cíclicas da economia, em vez de estarmos perante o mais grave choque económico  desde a Segunda Guerra Mundial. E é o financiamento da II Guerra Mundial que é bem instrutivo. A guerra foi um grave choque económico e a Grã-Bretanha contraiu pesados empréstimos para a pagar. Nós acabámos finalmente, em 2006, de deixar de pedir emprestado para pagar o esforço de  guerra, 61 anos depois desta ter acabado. Essa é uma maneira sensata de lidar com choques financeiros que são muito raros mas intensos, com lições importantes para a gestão e para a política económica. Embora o ratio da dívida  em relação ao PIB em 1945 excedesse os  250 por cento, ou seja, muito mais do que os  70 por cento de hoje, isto não impediu o governo de criar o sistema nacional de saúde, o SNS, de introduzir grandes reformas no sistema de educação, de expandir o Estado-Providência e de iniciar o difícil processo de reconstrução da economia no  pós-guerra.

 

Dado que ano estamos a enfrentar  um acontecimento  extraordinário, porque é que não se coloca o excesso de dívida criado  pelas circunstâncias da crise global num um fundo consolidado? O fundo poderia ser financiado com a venda de títulos de longo prazo que o chanceler sugeriu que fossem emitidos  e os títulos   resgatados  poderiam  estar ligados  a um fluxo de receitas com eles relacionado. O reembolso da dívida poderia alongar-se, digamos, por, 20 anos, não precisa ser 61 e o Governo poderia prosseguir uma estratégia de crescimento significativo gerindo a dívida residual numa base anual. Nenhuma destas propostas é uma solução perfeita. De resto, nem há solução perfeita. Mas pelo menos estas  são alternativas a tomar contra a política de austeridade cega prosseguida pela actual coligação. Claro, estas  respostas racionais de resposta a um acontecimento que em si é único  podem não  convencer as agências de rating irracionais, mas nós não podemos permitir que o  nosso futuro, o futuro da Grâ-Bretanha seja  dominado pela  irracionalidade.

 

 

O fracasso da política de austeridade está-se a tornar  dia a dia cada vez mais evidente, não só aqui na Grã-Bretanha, mas em toda a Europa, também. Mesmo a Alemanha está a começar a ter a percepção de que a empobrecer os seus próprios clientes pode não ser, e não é de modo nenhum, uma boa política. Apenas o governo de coligação na Grã-Bretanha não consegue reconhecer  a realidade. Uma fonte próxima  de  Osborne é citada pelo Financial Times como tendo argumentado que, em relação ao baixo crescimento na zona do euro, “não há austeridade em excesso: há muita dívida e há muito pouca  competitividade”.   

 

É desta forma que eles estão fora da realidade, fora deste nosso mundo. Os nossos governantes actuais não entenderam o texto de OBR onde se explica que é a austeridade que está a enfraquecer a competitividade e a tornar a redução da dívida ainda mais difícil. No entanto, o abandono da política de austeridade vai exigir um novo quadro de trabalho, dentro do qual é necessário construir uma plataforma fiscal e monetária eficiente. O relatório OBR e o trabalho do Professor Summers  proporcionaram o enquadramento necessário. A demonstração por eles feita de que é a austeridade que está a destruir de modo permanente a capacidade de produção futura, o PIB potencial, e assim está igualmente a reduzir a capacidade de  obtenção de receitas governamentais  no futuro,  é o  ponto de partida para um debate sobre as novas  e significativas  propostas políticas a aplicar urgentemente tanto na Inglaterra quanto na zona euro. A política deve ser imediatamente mudada e já e  antes que a austeridade posta em marcha pela coligação [ou pelas Troikas] faça ainda permanentemente mais estragos na  economia do Reino Unido [e na zona euro, também]…

 

Leave a Reply